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O custo da energia elétrica residencial no Brasil pesa mais no bolso do cidadão do que o observado em 77 nações, superando grandes potências econômicas mundiais como China, Canadá e Noruega.
O dado alarmante faz parte de um estudo elaborado pelo economista Daniel Duque, pesquisador do Centro de Liderança Pública (CLP), que analisou a realidade tarifária de 138 países.
A pesquisa joga luz sobre um forte paradoxo nacional: embora o Brasil possua quase 90% de sua matriz elétrica composta por fontes limpas e renováveis—historicamente mais baratas para se produzir—o consumidor final arca com uma das faturas mais caras e punitivas do planeta.
O grande vilão desse cenário não está nas usinas geradoras ou na falta de chuvas, mas sim no topo da fatura.
De acordo com os dados apresentados pelo CLP, a geração da eletricidade em si corresponde a apenas 30,4% do valor pago mensalmente pelo consumidor.
Os restantes quase 70% são inflados por uma pesada engrenagem que envolve a distribuição, transmissão, tributos elevados e, principalmente, uma série de encargos setoriais e subsídios embutidos por meio de decisões políticas, popularmente chamados de "jabutis" legislativos.
O Peso no Bolso:
Comparativo por Poder de Compra (PPC)Para que a comparação internacional seja justa, o levantamento do CLP ajustou o preço nominal da tarifa de cada país utilizando a metodologia de Paridade do Poder de Compra (PPC). Esse cálculo mede o impacto real do preço do quilowatt-hora (kWh) em relação à renda média e ao custo de vida de cada população.
Sob essa ótica, o Brasil cobra uma tarifa equivalente a US$ 0,357 por kWh, empurrando o país para a metade mais cara do ranking global. Confira abaixo como a eletricidade brasileira se posiciona diante de outros mercados mundiais:
| Posição no Ranking | País | Custo Ajustado por Poder de Compra (US$/kWh) | Perfil da Matriz Elétrica Predominante |
|---|---|---|---|
| Mais Caras | Guatemala | Superior a US$ 0,40 | Mista (Renovável e Fóssil) |
| Cabo Verde | Superior a US$ 0,40 | Dependente de Fósseis Importados | |
| BRASIL | US$ 0,357 | 89% Renovável (Hidro, Eólica e Solar) | |
| Mais Baratas | Estados Unidos | Inferior a US$ 0,18 | Mista (Gás Natural, Nuclear e Renováveis) |
| China | Inferior a US$ 0,15 | Mista (Carvão e forte expansão Renovável) | |
| Canadá | Inferior a US$ 0,12 | Majoritariamente Hidrelétrica | |
| Noruega | Inferior a US$ 0,10 | Majoritariamente Hidrelétrica |
Fonte: Dados baseados no estudo do Centro de Liderança Pública (CLP). [1, 2, 3]
Radiografia da Conta de Luz: Para onde vai o seu dinheiro?
Para entender o motivo de a conta de luz ser tão discrepante em relação ao custo real de produção, especialistas apontam para o desmembramento tarifário praticado pelas distribuidoras reguladas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).
A arrecadação mensal é dividida em cinco grandes fatias:
- Geração (30,4%): O custo real da energia gerada pelas usinas.
- Distribuição (26,1%): Margem que sustenta os cabos, postes e o serviço de atendimento das concessionárias locais.
- Tributos (18,1%): Impostos estaduais (ICMS) e federais (PIS/Cofins).
- Encargos e Subsídios (15,2%): Fundos como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), usada para bancar desde descontos para classes específicas até o incentivo de fontes que já são competitivas.
- Transmissão (10,1%): Custo para transportar a energia do local de produção até os centros urbanos.
Além dessa divisão estrutural, o consumidor brasileiro arca com as chamadas perdas comerciais, que englobam os furtos de energia (os famosos "gatos") e fraudes na rede elétrica. Toda a eletricidade desviada e não paga acaba sendo rateada legalmente e diluída nas faturas dos consumidores que pagam suas contas em dia.
O Alívio pode vir das Reformas
O próprio estudo do CLP e entidades do setor elétrico argumentam que o cenário atual exige urgência em reformas estruturais.
Segundo o levantamento, uma ampla reforma no setor elétrico que elimine os subsídios ineficientes, extinga os "jabutis" aprovados no Congresso e otimize a cobrança de impostos poderia provocar uma redução imediata de até 32% no valor das tarifas de energia no país.
Outra grande aposta do mercado é a abertura total do chamado Mercado Livre de Energia, prevista para avançar nos próximos anos, permitindo que consumidores residenciais escolham diretamente seus fornecedores de eletricidade, estimulando a concorrência de preços.