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SÃO LUÍS – O resultado das urnas no Maranhão consolidou uma das maiores reviravoltas da história política nacional.
Setenta e dois anos após o jovem advogado José Sarney de Araújo Costa conquistar a sua primeira suplência como deputado federal, em 1954, o sobrenome mais influente e tradicional da política maranhense deixará de constar na lista de autoridades eleitas do país.
A derrocada final do clã ocorreu com o revés de Roseana Sarney, de 77 anos, na corrida para o Senado Federal.
Vista historicamente como a herdeira natural do capital político do pai, a ex-governadora tentava retornar à Câmara Alta, mas foi contida pelo avanço de novas forças políticas representadas por André Fufuca e Lahesio Bonfim.
Sem outros parentes disputando cargos eletivos ou detendo mandatos remanescentes, a contagem regressiva para a saída definitiva do poder institucional está fixada para o dia 31 de janeiro de 2027, quando se encerra a atual legislatura na Câmara dos Deputados.
A construção e o ápice da dinastia
O império político dos Sarney começou a ser pavimentado no Maranhão na década de 1950.
José Sarney exerceu mandatos na Câmara dos Deputados até alcançar o governo do estado em 1965.
Habilidoso nas transições institucionais, ele migrou para o Senado durante a ditadura militar e chegou ao ápice da carreira em 1985. Com a trágica morte de Tancredo Neves, Sarney assumiu a Presidência da República, governando o Brasil no crucial período de redemocratização e na promulgação da Constituição de 1988.
Nas décadas seguintes, o poder da família ramificou-se através de seus filhos. Roseana Sarney marcou época ao se tornar a primeira mulher a governar um estado brasileiro, comandando o Maranhão por quatro mandatos. Paralelamente, seu irmão, José Sarney Filho (Zequinha Sarney), construiu uma sólida presença no Congresso com nove mandatos de deputado federal e duas passagens como ministro do Meio Ambiente.
Até a terceira geração chegou a pontuar na Assembleia Legislativa maranhense com o neto Adriano Sarney.
O desgaste e o recado das urnas
Analistas políticos apontam que o declínio do "sarneysismo" ocorreu gradualmente ao longo dos últimos dez anos, intensificado por sucessivas derrotas locais para o grupo liderado por Flávio Dino e pela crescente demanda do eleitorado maranhense por renovação.
O estado, historicamente marcado por baixos índices de desenvolvimento humano (IDH) e contrastes sociais, passou a rejeitar nas urnas a continuidade do modelo de política oligárquica.
O patriarca José Sarney, hoje com 96 anos e afastado de funções públicas desde 2015, assiste de fora o encerramento do ciclo histórico da família. Embora o clã ainda mantenha influência nos bastidores e no setor de comunicação do estado, o hiato representativo a partir de 2027 simboliza o fechamento definitivo de uma das eras mais longas e controversas da redemocratização do Brasil.
Linha do Tempo e Mandatos Directos da Família Sarney no Maranhão
Abaixo está o detalhamento cronológico de quantos anos os principais membros da família exerceram mandatos eletivos representando diretamente o estado do Maranhão (Excluem-se os mandatos de José Sarney pelo Amapá e cargos de ministro indicados):
| Político | Cargo Eletivo (Pelo Maranhão) | Período de Atuação | Total de Anos Exercidos |
|---|---|---|---|
| José Sarney (Patriarca) | Deputado Federal Governador do Estado Senador da República |
1955 – 1965 1966 – 1970 1971 – 1985 |
30 anos (Nota: De 1985-1990 foi Presidente do Brasil e de 1991-2015 Senador pelo AP) |
| Roseana Sarney (Filha) | Deputada Federal Governadora do Estado Senadora da República Deputada Federal |
1991 – 1994 1995 – 2002 2003 – 2009 2009 – 2014 2023 – 2027 |
28 anos |
| Sarney Filho (Filho) | Deputado Estadual Deputado Federal |
1979 – 1983 1983 – 2019 |
40 anos (Ininterruptos no Legislativo) |
| Adriano Sarney (Neto) | Deputado Estadual | 2015 – 2023 | 8 anos |
A consolidação das novas lideranças no Maranhão redesenhou completamente o mapa do poder no estado, impulsionada pelos resultados da eleição de outubro de 2026.
Três grandes nomes destacam-se como os principais protagonistas desse novo capítulo da política maranhense, substituindo o tradicional domínio de oligarquias.
1. Eduardo Braide (PSD)
Consolidou-se como a principal força política do Maranhão ao ser eleito governador do estado no primeiro turno, com 54,02% dos votos válidos (mais de 2,1 milhões de votos).
- Perfil: Advogado de 50 anos, Braide foi deputado estadual e federal.
- Trajetória: Ele conquistou projeção maciça ao ser eleito e reeleito prefeito de São Luís com votações expressivas (atingindo 70% de aprovação na capital). A gestão na prefeitura serviu como vitrine que o impulsionou a vencer em 130 dos 217 municípios maranhenses, assumindo o Palácio dos Leões a partir de janeiro de 2027.
2. André Fufuca (Progressistas)
Eleito para o Senado Federal como o candidato mais votado, com 21,43% dos votos (1.529.812 votos).
- Perfil: Médico e jovem político influente de uma ala conservadora moderada, ganhou protagonismo nacional ao atuar como deputado federal e ocupar espaço estratégico na articulação política e partidária em Brasília.
- Importância: Ao derrotar nomes tradicionais como a própria Roseana Sarney, estabelece-se como o novo articulador-chave e a principal ponte do Maranhão com o Congresso Nacional e o orçamento federal.
3. Lahesio Bonfim (Novo)
Conquistou a segunda vaga ao Senado Federal, atingindo 20,61% dos votos (1.471.761 votos) e batendo a marca das velhas estruturas do estado.
- Perfil: Médico e ex-pedreiro mirim, despontou na política a partir do interior maranhense.
- Trajetória: Tornou-se conhecido em todo o estado após uma gestão de forte apelo popular e austeridade fiscal em São Pedro dos Crentes.
Após surpreender ao ficar em segundo lugar na disputa pelo governo em 2022, Lahesio consolida-se agora como a principal liderança conservadora e antissistema vinda de fora da capital