Espaço para comunicar erros nesta postagem
O crédito caro começa a cobrar seu preço na economia brasileira. Empresas encontram mais dificuldade para financiar operações e renegociar dívidas, enquanto as famílias comprometem uma parcela crescente da renda com prestações. Em vez de enfrentar o problema, o governo recorre a medidas que estimulam o consumo, mas também ajudam a manter os juros elevados — e, portanto, a aumentar o custo de empréstimos e financiamentos.
Nesse aspecto, o terceiro mandato de Lula pode ser comparado a uma festa open bar embalada por um coquetel de estímulos fiscais. Sempre que a economia ameaça esfriar, o anfitrião distribui uma nova rodada de drinques, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 000 reais mensais, a criação dos programas Gás do Povo e Pé-de-Meia e a permissão para que trabalhadores saquem o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para quitar dívidas.
Os economistas calculam que Lula despejou 300 bilhões de reais na economia desde 2023.
Assim como convidados passando mal indicam que a festa foi longe demais, os recordes de inadimplência, endividamento e recuperações judiciais denotam que a combinação de incentivo ao consumo com juros altos já provoca uma forte ressaca — e ela pode piorar. “Ao insistir nessa fórmula, o presidente age para complicar o cenário nos próximos meses”, diz Claudio Damasceno, sócio da consultoria RGF, especializada em reestruturação de empresas. “Ele não reconhece a gravidade da situação.”
Não é por falta de alertas. Segundo a empresa de dados Serasa Experian, inéditos 9,2 milhões de empresas estão inadimplentes com compromissos não pagos que somam 239 bilhões de reais. Quase 6 400 negócios se encontram em recuperação judicial ou extrajudicial — o maior patamar da história. Apenas nas últimas semanas, recorreram à proteção da lei o Grupo Gennius, dono das redes de fast-food Habib’s, Ragazzo e Tendal, as varejistas Casas Bahia e Marabraz, e a Braskem, a maior petroquímica do país. Na terça-feira 1º, a Fertilizantes Heringer obteve na Justiça a suspensão por sessenta dias da execução de cobranças para renegociar dívidas de 834 milhões de reais. Um dia antes, a marca de óculos Chilli Beans anunciou uma reestruturação com o objetivo de convencer os bancos a reavaliar débitos de 600 milhões. A situação das famílias brasileiras também é alarmante: 82% delas — um recorde — estão endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio.
Os juros estão na base dos problemas que afligem empreendedores e consumidores. A taxa de referência Selic está em 14% ao ano, o que põe o Banco Central na mira de Lula — que não reconhece que é causador desse custo. Na segunda-feira 31, em jantar com dezesseis grandes empresários, o petista soltou um palavrão contra Gabriel Galípolo, presidente do BC, por manter a taxa nesse nível. Com um tom mais comedido, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, também culpa os juros altos pelas dificuldades. Para os especialistas, declarações desse tipo mostram uma inversão de causa e efeito. “É o aumento dos gastos públicos que desequilibra a economia”, afirma Jucelia Lisboa, sócia da consultoria Siegen. “Isso coloca o Banco Central em uma posição delicada.” A estratégia de Lula para angariar votos é conhecida: abrir os cofres públicos e turbinar o consumo, sem oferecer condições adequadas para que as empresas invistam e ganhem produtividade. Com isso, tudo o que consegue é pressionar a inflação. Ao mesmo tempo, para bancar os incentivos, o governo recorre a empréstimos e encorpa a dívida pública, que saltou de 72% para 82% do PIB neste mandato.
Não restou outra saída para o BC além de manter a Selic nas alturas para conter a inflação. A decisão mostra que, apesar de indicado por Lula, Galípolo conhece seu papel como gestor da política monetária. Há pouco mais de um ano, durante uma audiência no Senado, ele definiu sua função de um modo bem condizente com a farra atual: “Quando a festa está ficando muito quente e o pessoal já está em cima das mesas, o BC é o chato que tira a bebida e abaixa o som”. Na prática, isso significou encarecer o crédito para esfriar a economia. O crescimento de 0,5% do PIB no segundo trimestre deste ano, após avançar 1,1% no primeiro, e o recuo de 0,4% no consumo das famílias mostram que parte do objetivo foi cumprido. “O que vivemos são os efeitos do aperto monetário”, diz Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV. “O BC faz o seu papel.”
O cenário nebuloso dificulta tanto a obtenção de novos recursos quanto a renegociação de dívidas, já que os bancos estão mais rigorosos na concessão de empréstimos. “O endividamento das empresas e das famílias tem limites”, diz Rubens Sardenberg, economista-chefe da Febraban, a entidade que representa o setor financeiro. “Expandir o crédito ficou mais difícil.” De um lado, as grandes instituições se concentram em operações com garantias reais, nas quais o interessado oferece bens como imóveis e máquinas que poderão ser tomados pelo credor em caso de inadimplência. Os bancos menores, por sua vez, ainda emprestam dinheiro sem garantias reais — mas a um custo muito alto e com prazos mais curtos. A precaução é justificável quando se verifica que a agência de classificação de risco de crédito Fitch rebaixou a nota de 25 grandes empresas brasileiras de janeiro a agosto, um volume que só fica atrás das revisões promovidas durante a recessão do governo de Dilma Rousseff.
Enquanto isso, o governo recorre a paliativos como o programa Desenrola, de renegociação de dívidas, em vez de atacar o desarranjo fiscal que sustenta os juros nas alturas. O assunto desperta o típico negacionismo do PT. Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha da reeleição, chegou a classificar a crise fiscal como fake news. Compreende-se, assim, por que Lula dobra a aposta e insiste em induzir os brasileiros a se endividar ainda mais. Um exemplo é o programa Move Brasil, lançado em maio para financiar a compra de veículos por motoristas de aplicativo e taxistas. Apesar do orçamento de 30 bilhões de reais e dos juros subsidiados pelo BNDES, a adesão ao Move Brasil tem sido um fiasco. A razão é simples: muitos dos possíveis interessados estão inadimplentes ou já bateram no limite de endividamento — o que leva a maioria dos bancos a recusar o financiamento. “Quem mais precisa continua sem crédito”, diz Eduardo Lima de Souza, presidente da Amasp, associação que representa os motoristas de aplicativo de São Paulo. “Isso só trouxe uma falsa esperança.” O alcance limitado de iniciativas como essa torna evidente a situação: a farra fiscal de Lula já levou muitos brasileiros a uma grande ressaca.
Publicado por:
Imprensa Livre do Ceará | Jornalismo Independente
Imprensa Livre do Ceará é uma plataforma jornalística dedicada a trazer notícias de qualidade, com foco em informação precisa e atualizada sobre economia, política, tecnologia e tendências do agro no Brasil e no mundo.
Saiba Mais
