Moradores da região do Cumbuco, área turística de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), denunciaram a construção de um muro que impediria o acesso de pedestres, banhistas e trabalhadores à Lagoa do Cauípe, paraíso natural inserido em uma Área de Proteção Ambiental (APA) no Ceará. A obra foi embargada pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), no dia 1º de outubro.

A obra foi embargada há 15 dias, após manifestação da comunidade. O muro é de responsabilidade do grupo português Vila Galé. Em nota, o grupo informou que o muro era executado em conformidade com um “projeto que se encontra legalmente aprovado por todas as entidades municipais e ambientais”.


"Constatamos, no entanto, que o braço do rio que confina com a propriedade sofreu um alargamento natural desde a data da aprovação do projeto até agora e iremos reajustar o projeto alterando a localização do muro e garantindo os necessários afastamentos das margens do rio" , alegou o grupo Vila Galé (leia abaixo a nota na íntegra).


Construção de muro em Lagoa do Cauípe levanta debate no CE. — Foto: Gabriela Feitosa/g1 CE

Construção de muro em Lagoa do Cauípe levanta debate no CE. — Foto: Gabriela Feitosa/g1 CE

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➡️ A Lagoa do Cauípe fica a cerca de 49 quilômetros de Fortaleza e é um dos principais pontos turísticos do litoral de Caucaia. O espaço reúne praticantes de esportes aquáticos, especialmente kitesurfistas. Os visitantes também aproveitam o local para passeios de buggy e a cavalo, além de consumir comidas e bebidas típicas em barracas à beira-mar.

🦢 A lagoa é cercada por dunas móveis na margem direita do Rio Cauípe e por dunas fixas na margem esquerda. Há vegetação nativa, como cajueiros e pinhão-bravo, além de diversos animais, como pequenos répteis e aves.

APA do Lagamar do Cauípe, com as dunas móveis na margem direita do Rio Cauípe e as dunas fixas na margem esquerda, é marcada, também, pelo sangradouro do rio e pela vegetação nativa. — Foto: Reprodução/Governo do Ceará

APA do Lagamar do Cauípe, com as dunas móveis na margem direita do Rio Cauípe e as dunas fixas na margem esquerda, é marcada, também, pelo sangradouro do rio e pela vegetação nativa. — Foto: Reprodução/Governo do Ceará

'A lagoa faz parte da nossa vida': comunidade teme privatização

Segundo os moradores, o muro impediria o livre acesso de visitantes, trabalhadores e da própria comunidade à Lagoa do Cauípe, ao bloquear uma das poucas estradas de terra que levam ao local.

De acordo com a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), a construção foi embargada em 1º de outubro, mesma data em que o órgão recebeu a denúncia.

Durante a fiscalização, foi constatado o início da construção de um muro, com a execução da base do alicerce. A equipe verificou ainda que a intervenção estava localizada em Área de Preservação Permanente (APP) e dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Lagamar do Cauípe.


“Diante da irregularidade constatada, a Semace lavrou auto de infração, com aplicação de multa no valor de R$ 40 mil, e determinou o embargo da obra, com a imediata paralisação das atividades no local”, informou a Semace.


Lagoa do Cauípe recebe turistas de todo o brasil. — Foto: Gabriela Feitosa/g1 CE

Lagoa do Cauípe recebe turistas de todo o brasil. — Foto: Gabriela Feitosa/

Além das questões ambientais, moradores afirmam que a obra representa um risco à liberdade de circulação e ao sustento de quem depende da lagoa para trabalhar. Eles temem a privatização do espaço e a possibilidade de cobrança para acesso ao local.

Esse é o caso de Neidinha Sousa, bugueira de 55 anos, integrante de uma cooperativa da região e uma das lideranças dos protestos. Segundo ela, cerca de 180 famílias de bugueiros podem ser impactadas.

“A gente está em um momento muito difícil, porque a lagoa faz parte da nossa vida. É um ponto essencial do turismo. Estamos nos mobilizando, não vamos aceitar isso, porque a maioria das pessoas sobrevive da renda daqui. São professores locais de kitesurf, bugueiros (...) Aí vêm os empresários, veem a riqueza e querem tomar o que é nosso. Isso aqui faz parte da nossa vida, da nossa história, e nós não vamos abrir mão de jeito nenhum”


Na sequência: Neidinha, Victor e Fabrício, trabalhadores que temem construção do muro. — Foto: Gabriela Feitosa/g1 CE


Assim que a construção do muro começou, a comunidade se organizou para protestar. Os moradores acionaram a Semace, que enviou uma equipe para fiscalizar e interromper a obra.

Dias depois, em 5 de outubro, radores, bugueiros, instrutores de kitesurf e outros trabalhadores da região fizeram uma manifestação para chamar a atenção do poder público. A reivindicação é uma só: impedir a privatização da Lagoa do Cauípe.

No protesto, eles formaram um cordão humano perto da lagoa e exibiram faixas com os dizeres “Salvem a Lagoa do Cauípe” e “A Lagoa do Cauípe não está à venda”.

“Chamamos a Semace, e a obra foi paralisada. Mas não sei se vai continuar. A gente já está se mobilizando com o Ministério Público para eles verem nossa situação (...) O rico tem o poder do dinheiro, mas o pobre tem o poder da união. Nós estamos unidos e vamos ficar unidos para combater isso aqui”, afirma Neidinha.

Imagens da manifestação realizada na comunidade do entorno da Lagoa do Cauípe no dia 5 de outubro. — Foto: Reprodução

Imagens da manifestação realizada na comunidade do entorno da Lagoa do Cauípe no dia 5 de outubro. — Foto: Reprodução

FONTE/CRÉDITOS: g1 Ceará