O governo da Argentina anunciou na quinta-feira, 8, a escolha do consórcio que comprará 90% da Agua y Saneamientos Argentinos (AySA).

A empresa é responsável pelo abastecimento de água potável e pelo tratamento de esgoto na cidade de Buenos Aires e em municípios da região metropolitana.

A proposta vencedora foi de US$ 340,2 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão), apresentada pelo grupo formado por Rowing, Arcos, Transclor e PHX.

Leia Também:

A operação é uma das principais iniciativas do programa de privatizações do presidente Javier Milei e transfere ao setor privado o controle de um serviço essencial para aproximadamente 14 milhões de pessoas.

A proposta superou a de outro concorrente, o grupo Roggio, que ofereceu US$ 285 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão).

A venda ainda precisa passar pelas etapas finais de avaliação para ser concluída.

O governo prevê que o novo operador assuma a empresa sob um contrato de concessão de 30 anos, prorrogável por mais dez. O plano também estabelece obrigações de investimento para ampliar a cobertura dos serviços de água e esgoto.

A privatização, porém, abriu uma disputa sobre o valor atribuído à companhia, as condições do processo de venda e o que mudará para os consumidores.

Quem comprará a empresa

O consórcio vencedor reúne empresas ligadas a diferentes atividades, incluindo a produção de produtos químicos utilizados no tratamento de água.

Entre os integrantes está a Transclor, associada ao empresário Mauricio Filiberti, conhecido no setor de insumos para saneamento.

A proposta de US$ 340,2 milhões (R$ 1,9 bilhão) ficou abaixo da expectativa de US$ 450 milhões (R$ 2,5 bilhões) mencionada pelo Ministério da Economia argentino.

O valor oferecido corresponde à aquisição de 90% das ações da companhia, e não à compra integral de toda a estrutura de abastecimento da região.

Os 10% restantes continuarão nas mãos dos trabalhadores, por meio do programa de participação acionária da empresa.

A operação ocorre duas décadas depois de a companhia ter sido reestatizada pelo governo de Néstor Kirchner, em 2006. Antes disso, o serviço havia sido concedido ao grupo francês Suez.

A privatização atual representa, portanto, uma nova mudança no modelo de gestão de um sistema que já passou pelo controle privado e pelo público.

Por que Milei quer privatizar a AySA

O governo argumenta que a empresa acumulou ineficiências administrativas e dependeu durante anos de recursos públicos para financiar suas operações e investimentos.

Segundo os números divulgados pelo Executivo, a AySA recebeu transferências do Tesouro argentino que somaram US$ 13,4 bilhões (cerca de R$ 73,7 bilhões) entre 2006 e 2023.

Para Milei, a privatização faz parte de uma estratégia mais ampla de reduzir a participação do Estado na economia, diminuir os subsídios e transferir ao setor privado a responsabilidade por investimentos e pela gestão de serviços.

A administração federal também aponta problemas de cobertura.

Parte da população da área atendida pela companhia ainda não tem acesso à rede de água potável ou de esgoto, enquanto as perdas de água e a inadimplência são desafios para a operação.

O governo afirma que o novo modelo combinará gestão privada com supervisão pública. A intenção é que a empresa tenha mais capacidade de investimento e que o Estado deixe de arcar diretamente com parte dos custos de expansão e manutenção do sistema.

Há, contudo, uma ressalva importante: os números de transferências acumuladas ao longo de 17 anos não demonstram, isoladamente, que a empresa tenha sido ineficiente em todo esse período.

Para avaliar o desempenho da companhia, é necessário considerar também os investimentos realizados, a evolução da cobertura, as tarifas cobradas e a situação financeira em cada ano.

O que o novo controlador terá de fazer

A privatização não significa que o comprador poderá simplesmente administrar a rede sem obrigações contratuais.

O governo estabeleceu metas de investimento e expansão da infraestrutura para os primeiros anos da concessão.

O plano prevê mais de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 11 bilhões) em investimentos nos primeiros cinco anos, com recursos destinados à ampliação das redes de água e esgoto, à manutenção da infraestrutura e à melhoria da operação.

Entre as metas previstas estão elevar a cobertura de água potável para 90% da população atendida e a de esgoto para 75% até o fim do período inicial da concessão, em 2031.

Os índices atuais são de aproximadamente 75,3% para água e 63,4% para esgoto, segundo dados da empresa compilados pelo site de checagem Chequeado.

O contrato prevê ainda que o Estado continue responsável pela regulação do serviço. Isso significa que a privatização transfere o controle acionário e a operação da empresa.

Mas não elimina a necessidade de fiscalização pública sobre a qualidade do abastecimento, os investimentos e as condições de prestação do serviço.

Por que a venda é criticada

Uma das principais reclamações dos oposicionistas diz respeito ao preço.

A proposta vencedora ficou quase US$ 110 milhões (cerca de R$ 605 milhões) abaixo dos US$ 450 milhões (R$ 2,5 bilhões) que o governo esperava obter. C

Críticos questionam se o patrimônio da empresa foi avaliado adequadamente e se o Estado poderia ter conseguido uma oferta maior.

Outro ponto é a falta de transparência apontada por opositores e organizações de defesa dos consumidores.

O processo foi conduzido sem um preço mínimo de referência, e críticos afirmam que a avaliação patrimonial detalhada não foi divulgada de forma suficiente para que a sociedade pudesse verificar se o valor da operação é adequado.

A Defensoria da província de Buenos Aires também questionou a disponibilidade de informações sobre a avaliação da empresa e seus passivos ambientais.

Parlamentares da oposição, por sua vez, levaram questionamentos sobre o procedimento aos órgãos de investigação administrativa e à Justiça.

Essas críticas não demonstram, por si sós, que tenha ocorrido irregularidade na licitação.

Elas levantam, porém, questões sobre a possibilidade de comparar o preço obtido com o valor econômico da companhia e sobre a capacidade de fiscalização de uma operação que envolve um serviço essencial.

Há também preocupação com as tarifas.

Antes da privatização, o governo aumentou os preços cobrados pelo serviço e reduziu o número de funcionários para melhorar as condições financeiras da empresa e torná-la mais atraente aos investidores. Os reajustes acumulados chegaram a 538%.

Organizações de defesa dos consumidores temem que a transferência para o setor privado aumente a pressão por novos reajustes ou leve a uma priorização de áreas mais rentáveis em detrimento de regiões com menor cobertura.

O resultado dependerá das regras tarifárias, das obrigações contratuais e da atuação do órgão regulador.

O que diz o governo

A administração Milei sustenta que manter a AySA sob controle estatal exigiria a continuidade de aportes públicos que poderiam ser destinados a outras prioridades.

Na visão do Executivo, a privatização permite reduzir o peso da empresa sobre o orçamento e estabelecer compromissos de investimento com o novo operador.

O governo também afirma que a combinação entre gestão privada e fiscalização pública pode melhorar a qualidade do serviço, reduzir desperdícios e ampliar o acesso à água potável e ao esgoto tratado.

A defesa da operação se apoia ainda na reversão dos resultados financeiros da companhia nos últimos anos.

Segundo levantamento do Chequeado, a AySA registrou superávit operacional em 2024 e 2025 e não recebeu transferências do Tesouro em 2025.

O dado é relevante porque mostra que a empresa havia melhorado seus resultados antes da venda, embora isso não resolva, por si só, as necessidades de expansão da rede e de investimentos futuros.

A oposição entre as duas posições está no papel que o Estado deve desempenhar.

Para Milei, a gestão privada é um instrumento para reduzir gastos públicos e atrair capital. Para os críticos, a prestação de um serviço essencial exige transparência, tarifas acessíveis e compromissos que não podem ficar subordinados apenas aos interesses comerciais do controlador.

O que muda para os argentinos

No curto prazo, a venda não significa que os consumidores deixarão de receber água da mesma rede ou que o serviço passará imediatamente a funcionar de outra maneira.

A mudança central é quem controlará a empresa e como serão organizados os investimentos e a gestão nos próximos anos.

Os efeitos sobre a população dependerão de três fatores: o cumprimento das metas de expansão, a qualidade da fiscalização e a evolução das tarifas.

A ampliação da rede pode beneficiar bairros que ainda não têm cobertura adequada, mas os resultados exigirão obras, recursos e execução ao longo de vários anos.

O caso também serve como teste para a política econômica de Milei. O presidente pretende reduzir a presença do Estado em setores considerados estratégicos e transferir atividades para operadores privados.

Na AySA, o desafio será demonstrar que a mudança de controle se traduz em mais investimentos e melhor atendimento, sem comprometer a acessibilidade de um serviço indispensável.

A conclusão definitiva da venda e a execução do contrato serão decisivas para avaliar se o modelo alcançará os objetivos anunciados pelo governo.

FONTE/CRÉDITOS: Veja