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A bolsa brasileira chegou perto dos 200 mil pontos em 2026, amparada por uma forte entrada de capital estrangeiro. O movimento, porém, não foi suficiente para recolocar o país entre os destinos estratégicos dos grandes investidores globais, segundo Eric Hatisuka, CIO do Mirabaud Family Office Brasil.
“A gente tem caminhado para irrelevância”, afirma o executivo, que também lidera o comitê de investimentos local do grupo suíço.
A reversão recente do mercado ajuda a ilustrar essa avaliação. Depois de alcançar 198.657 pontos na máxima do ano, o Ibovespa fechou esta terça-feira (11) aos 167.874 pontos, uma queda de 15,5%. Apenas em agosto, os estrangeiros retiraram R$ 5,5 bilhões da bolsa até o dia 7. O saldo acumulado em 2026 ainda é positivo em R$ 35,5 bilhões, concentrado principalmente no primeiro trimestre, segundo dados da B3.
A correção não pode ser atribuída exclusivamente à saída desses investidores. Juros, cenário eleitoral, preços das commodities, resultados corporativos e o ambiente internacional também influenciam o índice. Para Hatisuka, no entanto, a rapidez com que o dinheiro entrou e começou a sair mostra como o Brasil ocupa uma parcela pequena nas carteiras globais.
O país representa 4,15% do MSCI Emerging Markets, índice de referência para os mercados emergentes. Como os emergentes correspondem a cerca de 11% do MSCI ACWI, que reúne ações de países desenvolvidos e emergentes, o peso direto do Brasil no índice global fica em torno de 0,5% (0,59% nos dados mais recentes da MSCI) — menos de um centésimo do total.
Na prática, um grande gestor internacional não precisa alterar significativamente a carteira para provocar uma movimentação relevante na B3. Da mesma forma, consegue reduzir a exposição ao país sem que a decisão produza um efeito material sobre seu portfólio global.
Na avaliação do CIO, a entrada observada no início de 2026 teve caráter mais conjuntural do que estrutural. O Brasil se beneficiou da procura por mercados emergentes e por ativos negociados a preços considerados baixos, mas não apresentou mudanças capazes de sustentar uma alocação permanente.
“O Brasil não está num ciclo de investimento, e não está num ciclo de reforma. Pelo contrário, a gente matou todas as reformas e todas as conversas de reforma. Então, o Brasil hoje é desinteressante.”
Por que o estrangeiro não olha para o Brasil
O tamanho reduzido do mercado não é a única explicação. Nem mesmo os juros brasileiros, entre os mais elevados do mundo, seriam suficientes para tornar o país estruturalmente atraente para o estrangeiro. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto, patamar ainda muito superior ao observado nas principais economias.
O problema, segundo Hatisuka, está no risco de que uma desvalorização do real elimine o retorno acumulado pelo investidor internacional. Ele cita o movimento ocorrido durante a pandemia, quando o dólar saiu da região de R$ 4 e se aproximou de R$ 6. Uma variação cambial dessa magnitude pode consumir vários anos de rendimentos obtidos com os juros brasileiros.
“Pra quem está fora é correr o risco desnecessário de desvalorização cambial. Então ele acaba não olhando.”
Esse risco ajuda a explicar por que o Brasil recebe pouca atenção inclusive nas carteiras internacionais do próprio Mirabaud. Segundo Hatisuka, as equipes que estão fora do país acompanham o cenário brasileiro, mas suas preocupações são diferentes e o interesse pelos ativos locais permanece limitado, inclusive na renda fixa.
“A gente está muito pequeno.”
A equipe brasileira incorpora as análises internacionais da instituição e procura integrar as parcelas local e offshore dos portfólios. Isso, porém, não significa que o Brasil tenha espaço relevante nas carteiras globais do grupo.
“Então as preocupações do banco lá fora são diferentes das nossas aqui.”
Para o investidor brasileiro, a conta é diferente. Como parte significativa de sua renda, de seus gastos e de seu patrimônio está denominada em reais, os juros elevados podem compensar a inflação e a perda de valor da moeda ao longo do tempo. O estrangeiro, que calcula o retorno em dólar, pode não receber a mesma compensação.
Essa diferença ajuda a explicar um dos paradoxos do mercado brasileiro: o mesmo juro que torna a renda fixa atraente para quem vive no país encarece o financiamento das empresas e reduz o interesse de longo prazo pela renda variável.
A crítica à política econômica não significa que Hatisuka considere o Brasil inviável para quem mora ou empreende aqui. A distinção está entre gerar patrimônio em reais e escolher o país como destino de uma carteira global.
“O Brasil é um país bom pra se morar. O Brasil é um país bom pra gerar riqueza, pra gerar negócios.”
O diagnóstico da carta da Mirabaud
A avaliação apresentada por Hatisuka na entrevista é aprofundada na seção sobre o Brasil da carta mensal de julho da Mirabaud, escrita por ele. No documento, o CIO afirma que pilares do tripé macroeconômico passam por um “processo silencioso e gradual de desgaste”.
O tripé reúne o regime de metas de inflação, o equilíbrio fiscal e o câmbio flutuante. Na visão do executivo, a falta de coordenação entre as políticas fiscal e monetária transfere um peso excessivo para os juros.
A carta argumenta que o aumento do gasto público pressiona a demanda e a inflação, o que exige juros mais elevados. As taxas maiores aumentam o custo da dívida pública, enquanto a tentativa de equilibrar as contas principalmente por meio de mais arrecadação reduz o lucro e a capacidade de investimento das empresas.
Na entrevista, Hatisuka afirma que o empresário brasileiro enfrenta simultaneamente juros altos, elevação da carga tributária e um câmbio que reduz a competitividade do produto nacional no exterior.
“O empresário brasileiro está sofrendo em três frentes.”
A reforma tributária pode simplificar parte do sistema, segundo ele, mas a quantidade de exceções e tratamentos diferenciados ameaça reduzir o ganho de eficiência inicialmente esperado. Hatisuka também considera que a permanência dos créditos tributários pode manter parte dos conflitos judiciais entre empresas e governo.
Na carta, a Mirabaud afirma que a continuidade do aumento da carga tributária pode “asfixiar o setor privado” e tornar progressivamente mais desvantajoso fazer negócios no país. O documento também diz que o encarecimento da produção reduz a industrialização e empurra o Brasil “para fora do mapa das cadeias globais de fornecimento”.
Para Hatisuka, o efeito final dessa combinação é a perda recorrente de competitividade. Quando os custos internos avançam mais rapidamente do que a produtividade, a desvalorização cambial acaba funcionando como um mecanismo de ajuste, tornando o país novamente mais barato em dólar.
Mais renda fixa e menos risco no Brasil
O diagnóstico levou a Mirabaud a aumentar o conservadorismo nas carteiras brasileiras. A casa já mantinha uma participação elevada em renda fixa, mas agora está ampliando a exposição a títulos pós-fixados e reduzindo riscos no crédito privado.
“A gente tá mais conservador em termos de estratégia.”
A gestora deixou de comprar papéis de companhias consideradas mais vulneráveis e, em determinados momentos, reduziu o esforço de captação de seus fundos. A intenção é evitar que uma entrada muito grande de recursos obrigue a equipe a adquirir ativos que não atendam aos seus critérios de risco.
“O que a gente faz, essencialmente, é apostar na renda fixa que tem no Brasil.”
A decisão também reflete o impacto dos juros sobre as empresas. Taxas elevadas por um período prolongado aumentam o custo de rolagem das dívidas e podem levar companhias mais alavancadas a renegociações ou reestruturações.
A operação brasileira da Mirabaud tem aproximadamente R$ 1,7 bilhão sob gestão, segundo Hatisuka. A estrutura reúne gestão de patrimônio e uma gestora de recursos. Esta última administra quatro fundos: Mirabaud Tradition (R$ 252 milhões), Mirabaud Conviction (R$ 135 milhões), Mirabaud Icatu Previdência (R$ 21 milhões) e Mirabaud Debêntures Incentivadas (R$ 36 milhões). A meta é alcançar R$ 600 milhões sob gestão nessa linha ao longo de 2026. A integração permite que as análises feitas pela equipe de crédito também sejam utilizadas nas carteiras dos clientes de gestão de patrimônio.
Ações ficam no exterior
A estratégia muda quando o dinheiro está fora do Brasil. Em vez de reproduzir no exterior a mesma composição das carteiras domésticas, a Mirabaud recomenda que os clientes aproveitem as características de cada mercado.
No Brasil, a casa concentra a maior parte da exposição em renda fixa. No exterior, utiliza ações, índices, empresas privadas e outros ativos que não encontram equivalentes no mercado brasileiro.
“A gente tem feito e falado com os clientes para usar a parcela lá fora para tomar risco.”
A Mirabaud investe em índices como o S&P 500, em ações americanas e europeias e em ativos privados. Hatisuka diz que a casa teve acesso à SpaceX ainda quando a companhia tinha capital fechado e mantém posições em outras empresas privadas.
A divisão também segue critérios setoriais. A exposição à tecnologia se concentra principalmente nos Estados Unidos, enquanto a Europa oferece alternativas em setores como indústria farmacêutica e engenharia pesada.
A gestora evita enviar dinheiro para o exterior e reinvesti-lo em títulos emitidos por companhias brasileiras. Embora esses ativos estejam em outra jurisdição e possam ser denominados em dólar, o cliente continuaria exposto ao risco econômico do Brasil.
Quem a Mirabaud atende
A estratégia é direcionada a investidores de alta e altíssima renda. No Brasil, a Mirabaud aceita clientes com pelo menos R$ 5 milhões em recursos líquidos. Para uma carteira exclusivamente internacional, o valor de referência é de US$ 2 milhões. Quando o patrimônio é administrado de forma integrada, os recursos mantidos nas duas jurisdições podem ser considerados em conjunto.
A proposta é tratar os investimentos no Brasil e no exterior como partes de uma única estratégia, embora as operações permaneçam juridicamente separadas. Por questões legais, a estrutura brasileira não recomenda produtos internacionais a clientes que mantêm conta apenas no país: o acesso a esses ativos fica restrito a quem já tem conta no exterior. A operação local pode, ainda assim, coordenar a alocação com a conta que o cliente mantém fora.
“A gestão da carteira, ela é uma coisa integrada. É o que a gente propõe.”
Antes de escolher os produtos, a equipe define os objetivos patrimoniais, a necessidade de liquidez, o perfil de risco e a distribuição desejada entre moedas e mercados.
“Os produtos que estão lá vão compor um objetivo que vem antes do produto em si.”
A remuneração vem de taxas de gestão ou consultoria cobradas diretamente do cliente, e não de comissões pela venda de produtos. Segundo o CIO, esse modelo reduz o incentivo para oferecer aplicações de acordo com a remuneração paga ao distribuidor.
“A gente não é vendedor de produto.”
Hatisuka afirma que o cliente brasileiro ainda está migrando de uma relação transacional, baseada na oferta frequente de aplicações, para um modelo de acompanhamento integral do patrimônio.
“E quando você muda de comissionamento para consultoria ou gestão, você muda exatamente de que lado da mesa você tá.”
Fundado em Genebra em 1819 e ainda controlado pela família fundadora, o grupo Mirabaud administra atualmente cerca de 35 bilhões de francos suíços (US$ 43 bilhões), dos quais aproximadamente US$ 5 bilhões na América Latina, metade referente a clientes brasileiros, segundo a gestora. Ao fim de junho, o patrimônio consolidado sob gestão era de 32,4 bilhões de francos, alta de 8% em um ano.
A operação brasileira foi aberta em 2019 e recebeu autorização para atuar com gestão discricionária em 2021. Hatisuka entrou naquele ano para estruturar o processo de investimentos. Engenheiro químico formado pela Unicamp, com mestrado em economia pela FGV, ele acumula mais de duas décadas no mercado financeiro.
A orientação mais conservadora não significa, segundo ele, evitar todo tipo de risco. Significa escolher em qual mercado e em quais condições vale a pena assumi-lo.
“O método é conservador. É correr o risco que vale a pena correr. Não é conservador no sentido de ficar em renda fixa. É conservador no sentido de não tomar risco desproporcional.” Para Hatisuka, essa disciplina também exige separar investimento de especulação. “A gente não vê o investimento como uma aposta. Aposta é bet”.