Fortaleza concentra 11.349 pessoas em situação de rua, segundo dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) coletados em maio passado. O avanço desse cenário de extrema vulnerabilidade social redesenha a paisagem urbana da capital cearense e se faz visível em cartões-postais da cidade, como o entorno do complexo cultural Estação das Artes, localizado no Centro. 

Diferente de outras ocupações urbanas consolidadas na Capital, onde se encontram barracos improvisados de papelão, redes elétricas clandestinas ou utensílios domésticos, o grupo que se estabeleceu ao redor da Estação vive em exposição total. São homens e mulheres que passam dias e noites inteiramente ao relento, tendo apenas poucos colchões divididos e cobertores para suportar as noites frias. 

Histórias de invisibilidade e convivência comercial

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Entre os rostos que compõem o agrupamento estão Luciana de Sousa, de 42 anos, e Maria Lilian, de 30 anos. Elas compartilham uma rotina de privações, mas também de dinâmicas próprias estabelecidas com a vizinhança. No local, vigora uma espécie de "acordo" tácito de respeito mútuo com os lojistas da região: as frentes das lojas não são invadidas. Em contrapartida, muitos comerciantes oferecem apoio material paliativo. 

Apesar da convivência pacífica, a realidade impõe barreiras. Comerciantes relatam que a presença do agrupamento gera incômodo em parte da clientela, que muitas vezes opta por serviços de entrega para evitar o contato visual com a extrema pobreza e o consumo de substâncias químicas na região.

"Eles precisam de uma reabilitação social e introdução mais efetiva na sociedade", analisa Abraão Nicolas, funcionário de um comércio local que presta auxílio ao grupo. 

A polêmica dos equipamentos de apoio e promessas de expansão

A ocupação ganha contornos mais complexos em meio ao impasse que envolve os equipamentos socioassistenciais do município. O Centro Pop do Centro — unidade fundamental para a garantia de higiene, alimentação e emissão de documentos — virou alvo de ação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

O órgão exige reestruturação básica, incluindo instalação de computadores com internet e disponibilização de arquivos para o atendimento digno dos usuários. 

Atualmente funcionando em caráter provisório na rua Major Facundo, o Centro POP enfrenta dificuldades para encontrar uma sede definitiva. Uma mudança planejada para a rua Antônio Pompeu foi cancelada após resistência do proprietário do imóvel.

A coordenação municipal, gerida por Machado, estipulou o prazo de 31 de janeiro de 2027 para transferir o serviço para um novo local no Centro. Como estratégia de descentralização, a Prefeitura anunciou que a capital ganhará uma terceira unidade do Centro POP, prevista para ser instalada no bairro Papicu.

A administração municipal ressaltou que as tratativas esbarram na recorrente recusa de proprietários em alugar imóveis para essa finalidade. 

Gestão foca em desocupação pacífica e habitação

Diante das críticas sobre as recentes desocupações em viadutos da cidade, como o da Via Expressa com Dom Luís (onde viviam cerca de 500 pessoas) e o da avenida Borges de Melo, o prefeito Evandro Leitão defendeu o modelo adotado pela gestão. Segundo o prefeito, as ações em bairros como Pici, Henrique Jorge e Genibaú ocorrem sem uso de forças de segurança, priorizando semanas de sensibilização com equipes multidisciplinares de assistência social, saúde e líderes religiosos. 

Como resposta habitacional de longo prazo, a Prefeitura afirma ter expandido o programa de aluguel social de 3 mil para quase 5 mil beneficiários, além de prometer a entrega de 3 mil novas moradias até janeiro de 2026 e o início de outras 3 mil unidades subsequentes.

 Enquanto os projetos de habitação não se concretizam, calçadas históricas e praças do Centro continuam servindo de teto para milhares de fortalezenses.

FONTE/CRÉDITOS: O Povo