A caderneta de vacinação pode parecer um documento simples, mas representa uma das principais ferramentas de proteção da criança contra doenças que podem causar complicações graves, sequelas e até morte. Nos últimos anos, o Brasil vem registrando uma recuperação das coberturas vacinais depois de um período de queda. O problema é que a recuperação ainda não significa que todas as crianças estejam protegidas.

Dados da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) mostram que, em 2025, a cobertura vacinal infantil das vacinas avaliadas apresentava média de aproximadamente 85%. Entre janeiro e agosto, com dados consolidados até junho, a pentavalente alcançava 85,57%; a pneumocócica 10-valente, 85,94%; a poliomielite inativada, 84,81%; e a primeira dose da tríplice viral, 86,45%. A meta recomendada para esses imunizantes é de 95%.

Em Fortaleza, a dificuldade também aparece nos números. Em 2025, a Prefeitura informou cobertura de 81,3% para a poliomielite e 93,7% para a tríplice viral. Já na campanha de multivacinação encerrada em 1º de setembro de 2026, foram aplicadas 214.758 doses na capital, sendo 103.540 em crianças e adolescentes menores de 15 anos. A estratégia teve justamente o objetivo de localizar atrasos e atualizar as cadernetas.

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Para a pediatra Carolina Holanda, acompanhar o calendário é uma responsabilidade que não deve ser deixada para depois.

“A vacina não deve ser vista apenas como uma prevenção para quando a doença aparece. Ela existe justamente para evitar que a criança chegue a uma situação de risco. Quando uma dose é atrasada ou deixada de lado, dependendo do imunizante e da idade, a criança pode ficar temporariamente sem a proteção esperada”, explica Carolina Holanda.

O calendário também mudou. Em 2026, a vacina pneumocócica 20-valente passou a fazer parte da rotina para crianças menores de cinco anos, ampliando a proteção contra doenças pneumocócicas, como pneumonias e meningites. A vacinação contra a dengue também passou a integrar a estratégia para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, conforme as indicações do Programa Nacional de Imunizações. Outra mudança foi a inclusão, desde agosto deste ano, de um segundo reforço da vacina contra a poliomielite aos quatro anos.

A pediatra chama atenção para um comportamento que pode comprometer a proteção coletiva: escolher quais vacinas a criança vai ou não receber sem avaliação profissional.

“Os pais podem e devem tirar dúvidas. O problema é tomar uma decisão baseada apenas em informações de redes sociais ou na experiência de outra pessoa. Cada vacina tem uma indicação, uma faixa etária e uma função. O calendário é elaborado considerando os riscos das doenças e a proteção necessária em cada fase da infância”, afirma Carolina.

A discussão ganha outro lado quando se ouvem os pais. A jornalista Fernanda Leite, por exemplo, conta que procura acompanhar todas as doses do filho Gabriel Mendes de 11 anos e manter a caderneta atualizada.

“Eu sempre tive a preocupação de acompanhar a caderneta e não deixar as vacinas para depois. A gente acaba esquecendo alguma coisa no meio da rotina, então procuro conferir as datas e, quando existe alguma dúvida, pergunto ao pediatra. Para mim, é uma forma de cuidado. Se existe uma vacina indicada para proteger meu filho de uma doença que pode ser grave, eu prefiro não correr o risco”, relata Fernanda.

A opinião não é a mesma para todas as famílias. Rebeca Souza, mãe de duas crianças de 7 e 9 anos, conta que decidiu não aplicar algumas vacinas no filho, entre elas a vacina contra a covid-19 e a dengue, por considerar que determinadas doenças apresentam menor risco para a criança.

“Eu procuro me informar bastante antes de decidir. Algumas vacinas eu não considero tão necessárias para o meu filho e, por isso, prefiro conversar e avaliar cada uma individualmente. A vacina contra a dengue e a contra a covid-19, por exemplo, são algumas das que eu ainda tenho dúvidas e optei por não dar.”

Para Carolina, o ponto principal é diferenciar dúvida de decisão baseada em informação sem respaldo científico.

“É importante que os pais questionem, mas também é importante que procurem respostas em fontes confiáveis e conversem com profissionais de saúde. Não seguir o calendário recomendado sem uma avaliação individual pode deixar a criança vulnerável a doenças que são preveníveis. A vacinação não protege somente aquela criança, mas também ajuda a reduzir a circulação dos agentes infecciosos na comunidade”, explica.

O cenário brasileiro, apesar dos desafios, apresenta sinais de recuperação. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde com base em estimativas da Organização Mundial da Saúde e do Unicef, o número de crianças que não receberam nenhuma dose da vacina pentavalente caiu de cerca de 360 mil em 2023 para 50 mil em 2025. O número de crianças consideradas “zero dose” também caiu de 360 mil para 255 mil em 2024 e para 50 mil em 2025.

Isso não significa, porém, que o problema esteja resolvido. A proteção depende de completar os esquemas indicados e alcançar coberturas altas e homogêneas. No Ceará, o próprio histórico mostra como os índices podem oscilar: em 2023, o Estado chegou a registrar 93% de cobertura contra a poliomielite em crianças menores de um ano, uma das maiores taxas do país.

Para os pais que perderam alguma dose, a orientação é não abandonar o calendário. O Ministério da Saúde informa que, na maioria das situações, não é necessário reiniciar todo o esquema: as doses já recebidas devem ser consideradas, e a criança deve procurar uma unidade de saúde para atualizar a caderneta.

No fim, a pergunta que fica para as famílias é simples: quando foi a última vez que você conferiu a caderneta de vacinação do seu filho?

FONTE/CRÉDITOS: O Estado