WASHINGTON - O plano dos Estados Unidos para aumentar a pressão econômica sobre o Irã por meio de sanções e isolamento tem como objetivo levar o regime dos aiatolás ao colapso, afirmou nesta quinta-feira (20) o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

Na quarta-feira, 19, o presidente Donald Trump anunciou medidas econômicas “sem precedentes” contra o Irã e prometeu ampliar a pressão sobre países e empresas que mantenham relações comerciais e financeiras com o regime iraniano.

“Isso vai funcionar no Irã e fará com que o regime entre em colapso”, disse Bessent à CNBC. “Será a maior operação coordenada de isolamento econômico da história mundial”, acrescentou “Ou estão conosco ou contra nós”.

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Pressão sobre a China

Questionado se os Estados Unidos pressionariam a China, ele observou que “muitas conversas são melhor conduzidas em privado”, mas instou Pequim a “aderir ao plano”.

A China é a maior parceira comercial do Irã e a principal consumidora de seu petróleo. Durante anos, Pequim permaneceu praticamente isolada em sua disposição de desafiar as sanções ocidentais ao petróleo iraniano, chegando a comprar até 90% das exportações de petróleo de Teerã.

Nos últimos meses, no entanto, a capacidade do Irã de transportar petróleo por via marítima foi praticamente interrompida por um bloqueio naval dos EUA.No ano passado, a China estimou o valor de seu comércio bilateral com o Irã em quase 10 bilhões de dólares, um montante que não inclui o petróleo.

Opção não-militar

Ainda de acordo com Bessent, o plano de minar economicamente o Irã deve substituir, pelo menos por ora, operações militares contra o país persa.

A guerra lançada por israelenses e americanos contra o Irã completa seis meses na semana que vem num estágio de impasse após o fim de um cessar-fogo de 60 dias encerrado recentemente.

No momento, Washington e Teerã não estão negociando seriamente, nem trocando ataques. Em vez disso, o Irã e os Estados Unidos encontram-se em um estado intermediário e instável, que traz o risco tanto de um retorno aos confrontos quanto de um impasse cada vez mais rígido.

Segundo analistas, na raiz dessa situação indefinida estão cálculos — e talvez erros de cálculo — de ambos os lados.

Enquanto autoridades iranianas acreditam que têm mais a ganhar resistindo à pressão econômica dos EUA e mantendo o controle sobre o Estreito de Ormuz do que fazendo grandes concessões em um acordo negociado, os Estados Unidos parecem apostar que apertar ainda mais o cerco econômico contra o Irã terá sucesso onde ataques militares falharam.

“Os dois países estão ‘em um estado de limbo constante’”, disse Nicole Grajewski, professora assistente do Centro de Estudos Internacionais da Sciences Po, em Paris. “Não houve mudanças fundamentais significativas nos últimos meses”, acrescentou ela, “além de um maior endurecimento da posição iraniana e de esforços repetidos — e até agora malsucedidos — dos EUA para encontrar alguma forma de saída.”

Cerimônia que marca os 40 dias do sepultamento do falecido Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei, na Grande Mosalla do Imam Khomeini, em Teerã Foto: Vahid Salemi/AP

Os cálculos de Teerã

Neste mês, Teerã apresentou a Washington uma lista de exigências para a reabertura do Estreito de Ormuz. As exigências incluíam a suspensão de sanções, a liberação de ativos congelados e o pagamento de reparações de guerra.

Há semanas, o Irã negocia com Omã a futura gestão do estreito; no entanto, a lista de exigências sugeria que, mesmo na eventualidade de um acordo, as forças iranianas continuariam a ameaçar e atacar o tráfego marítimo na região.

“Após se recuperar do choque inicial da guerra, Teerã está agora determinado a demonstrar força”, afirmou Mehrzad Boroujerdi, diretor da Faculdade de Artes, Ciências e Educação da Universidade de Ciência e Tecnologia do Missouri. “O uso do Estreito de Ormuz como instrumento de pressão e a postura intransigente nas negociações paralelas com os Estados Unidos e Omã devem ser compreendidos nesse contexto.”

Nos últimos meses, a retórica do presidente Trump oscilou entre ameaças de aniquilação e promessas de que um acordo diplomático estava próximo.

Se essa abordagem tinha como objetivo intimidar as autoridades iranianas para que fizessem concessões, parece ter tido o efeito oposto. Elas parecem estar convencidas de que Trump não está disposto a reiniciar uma guerra em grande escala — algo que ameaça elevar os preços do petróleo e que é impopular entre o público americano, especialmente antes das eleições de meio de mandato.

“O Irã parece acreditar que os Estados Unidos acabarão se cansando de um confronto caro e sem prazo definido”, disse Alex Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute, uma organização de pesquisa sediada em Washington.

Países no alvo de Trump

Entre os países na mira da pressão econômica de Trump, se destacam, além da China, a Índia, o Paquistão, os Emirados Árabes e a Turquia.

O Irã já foi o principal fornecedor de energia da Índia. No entanto, as sanções dos EUA levaram Nova Délhi a reduzir os laços, e o valor do comércio entre os dois países caiu drasticamente nos últimos anos, segundo dados oficiais da embaixada da Índia no Irã.

As estimativas indicam que, no ano fiscal de 2025-26, o comércio bilateral total foi de US$ 1,63 bilhão, uma queda acentuada em relação aos mais de US$ 17 bilhões registrados em 2018-19. Em 2019, a Índia interrompeu totalmente a compra de petróleo iraniano, sob pressão de Trump. No último ano fiscal, autoridades indianas informaram que o país importou do Irã principalmente maçãs, pistaches, tâmaras e kiwis.

Na quarta-feira, os Emirados Árabes Unidos pareceram antecipar-se aos comentários do presidente ao anunciar a suspensão de todas as transações comerciais e financeiras com o Irã.

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio, o comércio entre o Irã e os Emirados movimentou cerca de US$ 28 bilhões em 2024. A decisão dos Emirados pode afetar a capacidade dos importadores iranianos de pagar por mercadorias, uma vez que muitos desses serviços financeiros são prestados por meio dos Emirados Árabes Unidos.

Até o momento, o Paquistão e a Turquia têm permanecido relativamente protegidos das medidas econômicas dos EUA contra Teerã, mesmo mantendo um comércio terrestre significativo com o Irã.

Em 2022 — o ano mais recente com dados disponíveis da Organização Mundial do Comércio —, o Irã importou mais de US$ 11 bilhões em mercadorias da Turquia, sua terceira maior fonte de importações naquele ano. / AFP e NYT