Maranguape, localizada a mais de 30 quilômetros de Fortaleza (CE), voltou a ser a cidade mais violenta do Brasil, com uma taxa de 100,3 vítimas por 100 mil habitantes, dado que representa mais de cinco vezes a média brasileira.

O município cearense é o lado mais visível do mapa da violência no País: a interiorização das disputas entre facções e a corrida pelo controle de corredores logísticos usados para abastecer o tráfico de drogas.

O estudo do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira, 23, mostra que as dez cidades com as maiores taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) estão no Nordeste.

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São cinco na Bahia, três no Ceará, uma em Pernambuco e outra na Paraíba.

Quase todos os municípios ocupam posições estratégicas na malha de transporte do Nordeste. São cidades cortadas por rodovias federais, próximas de portos ou aeroportos e, em alguns casos, importantes destinos turísticos.

O que antes era visto apenas como infraestrutura para o desenvolvimento passou a despertar o interesse das facções, que disputam esses territórios porque eles facilitam o armazenamento, a circulação e o escoamento da cocaína destinada tanto ao mercado interno quanto ao exterior.

Maranguape é cortado pela CE-065 e está próximo da BR-222, duas rotas importantes para o deslocamento de cargas na região. Nos últimos anos, tornou-se palco da disputa entre Comando Vermelho (CV), Guardiões do Estado (GDE), Massa Carcerária e remanescentes do Primeiro Comando da Capital (PCC).

A poucos quilômetros dali, Maracanaú aparece na terceira colocação nacional, com taxa de 80,7 mortes por 100 mil habitantes. Vizinha de Maranguape, compartilha as mesmas características, como acesso à BR-222, às rodovias estaduais CE-060 e CE-065 e proximidade com o Aeroporto Internacional de Fortaleza.

Cinco cidades baianas entre as mais violentas

Na Bahia, cinco municípios aparecem entre os dez primeiros colocados. Eunápolis ocupa a segunda posição, com taxa de 85,1 mortes por 100 mil habitantes. A cidade não aparecia na lista das 20 cidades mais violentas em 2024.

Cortada pelas BRs-101 e 367, o local se tornou um ponto estratégico para a circulação de drogas no extremo sul baiano. Em agosto do ano passado, três jovens morreram e outro ficou ferido em um ataque a tiros, episódio que expôs a escalada da violência local.

Logo atrás aparecem Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro. Apesar das diferenças entre elas, compartilham características semelhantes: proximidade de portos, aeroportos ou grandes eixos rodoviários.

Porto Seguro, conhecida internacionalmente pelo turismo, combina intenso fluxo de visitantes com acesso facilitado ao litoral, condição que interessa tanto ao varejo de drogas quanto às rotas internacionais do tráfico. Em 2025, também liderou o ranking nacional de mortes decorrentes de intervenção policial, fator que influencia diretamente sua elevada taxa de violência letal.

O levantamento também chama atenção para outro aspecto da reorganização do crime. Em cidades da região metropolitana de Fortaleza, como Caucaia, Maranguape e Maracanaú, moradores passaram a ser expulsos de suas casas por ordem das facções, acusados de manter vínculos com grupos rivais.

Na parte final da lista aparecem Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, Santa Rita, na Paraíba, e Juazeiro, na Bahia. Em comum, novamente, a localização estratégica.

Cabo está a poucos quilômetros do Porto de Suape, um dos principais complexos portuários do País. Santa Rita fica próxima ao Porto de Cabedelo e é cortada pelas BRs-101 e 230. Juazeiro concentra o encontro de três rodovias federais e ainda conta com a navegação pelo Rio São Francisco.

Para Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a presença inédita de Santa Rita entre as cidades mais violentas chama atenção porque a Paraíba permanecia relativamente à margem desse processo de expansão das facções pelo Nordeste.

“É a primeira vez que uma cidade da Paraíba aparece entre as mais violentas do País”, observa.

FONTE/CRÉDITOS: Estadão