O Brasil ganhou novo protagonismo como destino nos últimos anos, registrando o maior crescimento do turismo internacional no mundo. Segundo dados da Embratur, houve um aumento de 45% nas chegadas de turistas estrangeiros entre janeiro e setembro de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. Nesse contexto, o Rio de Janeiro vem se consolidando como um dos principais cenários de desejo para viagens de lazer, impulsionado pela estética do Brazilcore – frequentemente acompanhada por imagens das praias cariocas, do Cristo Redentor e de comunidades como Rocinha e Vidigal. A predominância desses símbolos passou a fomentar o debate de que o fenômeno seria, na prática, um Riocore.

Camisas de time, biquínis asa-delta, cabelos descoloridos, chinelos, microshorts, óculos cyber, unidos à muita sensualidade, compõem essas visualidades. Algo que era visto de forma pejorativa, agora, é sinônimo de cool. E a volta da estética Y2K endossa ainda mais a tendência, com calças e bermudas de cintura baixa e baby tees. Lucas Rodrigues, coordenador de branding, cultura de marca e comunicação da Kenner, defende que as periferias brasileiras vêm ditando tendências há muito tempo, com códigos de moda originados entre uma juventude historicamente marginalizada, mas que se tornaram produtos de interesse para outros públicos, chegando a ser comercializados por marcas mundo afora. A força criativa do Rio vai além do vestuário, sem dúvidas. Ela se revela também na construção de imagens que refletem a energia solar da cidade, permeada por uma geografia de muita natureza e de cores vibrantes, em composições que expressam uma vivacidade contínua, algo similar ao que alcançamos apenas quando estamos de férias. Vivenciar toda essa experiência se tornou algo aspiracional. O soft power da cidade passou a aparecer como cenário em campanhas internacionais. E diante de um mundo tão digital e globalizado, as demarcações do que seria apropriação cultural ou uma homenagem se tornam ainda mais complexas.

Peças e tendências associadas ao Brazilcore, clicadas na Rocinha e na Barra de Guaratiba — Foto: Rody Oliveira e Fotogracria

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Peças e tendências associadas ao Brazilcore, clicadas na Rocinha e na Barra de Guaratiba — Foto: Rody Oliveira e Fotogracria

Para Rafaela Pinah, fundadora do Coolhunter Favela, o Rio de Janeiro é um “portal de tendências” impulsionado pela autenticidade das periferias cariocas. “As favelas produzem códigos culturais próprios, não só na oralidade como também nas visualidades, nesse lugar do corpo, de como ele exerce o seu espaço de presença. A gente tem coisas muito simbólicas, como o reflexo alinhado [técnica de descoloração que cria ‘bolinhas’ platinadas ao longo do cabelo] e o corte do jaca [com as laterais em degradê em direção ao volume no topo da cabeça], que atravessam o tempo. Além do funk, que é também superimportante no papel de antecipação de tendências”, contextualiza. Ao lado de Victor Freire, responsável pela direção de arte, Rafaela e o Coolhunter Favela desenvolvem como editoriais e campanhas, centradas predominantemente em Realengo, destacando expressões populares como os bate-bolas do Carnaval de rua e as conexões com a diáspora africana.As comunidades da Rocinha e do Vidigal estão entre os lugares de maior interesse turístico na cidade. Para a fotógrafa Salemm, buscar uma experiência autêntica nesses territórios ainda se aproxima de uma forma de exotificá-lo, mas reconhece que o turismo, quando articulado pelos moradores, pode ser um meio de gerar renda e combater estereótipos associados à violência. Influenciada pelo livro Rocinha, de André Cypriano, a jovem escolheu a fotografia como meio de devolver o protagonismo para os moradores. “Já cresci com todas essas retratações negativas, né? Venho com poesia, com uma narrativa que fala do senso de comunidade. Que reflete a juventude, a moda, nossa identidade e território.”

Peças e tendências associadas ao Brazilcore, clicadas na Rocinha e na Barra de Guaratiba — Foto: Rody Oliveira e Fotogracria

Peças e tendências associadas ao Brazilcore, clicadas na Rocinha e na Barra de Guaratiba — Foto: Rody Oliveira e Fotogracria

O ativista, empreendedor social e comunicador, Raull Santiago, nascido no Complexo do Alemão, observa que a força das periferias cariocas está justamente nessas redes cotidianas de cuidado, solidariedade, criatividade coletiva e nas formas próprias de empreender, comunicar e celebrar a vida. Uma perspectiva que vem orientando o trabalho de Vitinho Rocinha e Rodrigo Moreira, também conhecido como Cabelinho, que transformaram o engajamento digital em uma experiência de turismo comunitário na Rocinha. O roteiro criado por eles inclui visitas às lajes mais famosas – como a Laje do Marcos, onde visitantes podem descolorir o cabelo com Cabelinho –, além de conhecer a história local, participar de partidas de futebol e comer churrasco. Segundo os criadores, o turismo tem ampliado oportunidades econômicas e dado visibilidade a talentos locais, especialmente após a viralização dos seus conteúdos com turistas estrangeiros.

O aumento do interesse internacional pelo Rio decorre também de uma estratégia baseada na “economia do espetáculo”, que utiliza grandes eventos para impulsionar turismo, consumo e visibilidade cultural. Ainda assim, como ressalta Olivia Merquior, curadora de eventos como Rio2C, BRIFW e Rio Fashion Week, esse crescimento não se converteu, necessariamente, em condições estruturais sustentáveis para os negócios locais de moda. “Existe um lado positivo, que é a circulação maior de referências brasileiras e o interesse internacional por elementos ligados ao funk, às periferias, ao esporte e ao modo de vestir do país, principalmente para um público jovem. Mas também existe uma diferença importante entre engajamento digital e desenvolvimento estrutural. Vemos marcas usando códigos estéticos brasileiros para gerar repercussão online, mas sem necessariamente construir relações consistentes com os criativos locais”, diz.

Peças e tendências associadas ao Brazilcore, clicadas na Rocinha e na Barra de Guaratiba — Foto: Rody Oliveira e Fotogracria
Peças e tendências associadas ao Brazilcore, clicadas na Rocinha e na Barra de Guaratiba — Foto: Rody Oliveira e Fotogracria

Raull reforça a importância das marcas que querem se conectar a esse movimento construírem relações de longo prazo. “Por um lado, existe um interesse legítimo de pessoas que querem conhecer outras realidades do Rio para além dos cartões-postais tradicionais. Por outro, também existe o risco de a favela virar apenas um produto estético ou uma experiência exótica de consumo”, pondera. “Acho que conexões genuínas só acontecem quando existe troca, respeito e interesse real pelas pessoas que vivem nesses territórios, e não apenas pela estética construída em torno deles.

O problema começa quando a favela vira cenário, mas os moradores continuam invisíveis”, finaliza.

FONTE/CRÉDITOS: Vogue Brasil