Universidades e escolas em Manaus fecharam as portas na manhã desta sexta-feira (9). A fumaça gerada pelas queimadas no estado atingiu nesta semana os piores níveis, desde setembro, segundo o sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 A Defesa Civil emitiu um alerta de risco severo à saúde, recomendou uso de máscaras e pediu que a população evite sair de casa.

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a UEA decidiram suspender as atividades presenciais. "A medida considera a necessidade de preservar a saúde e o bem-estar da comunidade universitária diante das condições atuais", publicou, em nota, a UEA.

Leia Também:

Incêndio às margens da rodovia AM-010, próximo ao bairro Jacarezinho, na entrada de Itacoatiara — 8 de outubro de 2026 — Foto: Liam Cavalcante Rede Amazônica
Incêndio às margens da rodovia AM-010, próximo ao bairro Jacarezinho, na entrada de Itacoatiara — 8 de outubro de 2026 — Foto: Liam Cavalcante Rede Amazônica

A Prefeitura de Manaus suspendeu as aulas das 242 mil crianças que frequentam as escolas municipais. É a primeira vez neste ano que a medida é tomada. Desde setembro, o amazonense vê as queimadas avançarem no estado. Com isso, a fumaça se espalha e chega à capital. Na noite desta quinta-feira (8), o ar atingiu picos de 337 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de material particulado, substância tóxica presente no fumaceiro, segundo monitoramento do Selva.

O risco da inalação dessa substância é maior dependendo do tempo de exposição e da quantidade inalada. Apesar de causar mal principalmente a grupos vulneráveis, como crianças e idosos, todos são atingidos e podem ter comprometimento pulmonar e respiratório.

Nos últimos dias, o risco da fumaça se agravou. Um lixão em área privada sofreu um incêndio que ainda não cessou. O caso ocorreu na zona leste de Manaus. A fumaça provocada pela queima de lixo carrega outros materiais tóxicos como microplásticos, que podem causar inflamação no sistema respiratório e entrar na corrente sanguínea.
Apesar de causar mal principalmente a grupos vulneráveis, como crianças e idosos, todos são atingidos e podem ter comprometimento pulmonar e respiratório.
Apesar de causar mal principalmente a grupos vulneráveis, como crianças e idosos, todos são atingidos e podem ter comprometimento pulmonar e respiratório.

O epidemiologista Jesem Orellana, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), diz que as consequências podem não ser momentâneas. "Ações que visem a implementação de respostas e ações de recuperação ambiental precisam ser aperfeiçoadas, pois os efeitos residuais podem se estender por semanas ou anos."


O pesquisador Filipe Arruda, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), afirma que a situação no Amazonas passa por constantes agravamentos. "A poluição de gases, quando queima lixo, é imensamente pior do que a de uma queima de uma área de vegetação. A gente tem de pensar na questão da exposição crônica e aguda. A exposição aguda é quando você fica exposto a uma grande quantidade de material particular a curto período de prazo. Manaus chegou a registrar 400 (µg/m³) de material particulado. Esses eventos não devem ser negligenciados."

QUEIMADAS EM TODO O ESTADO

O Amazonas tem 62 cidades, com uma extensão territorial de 1.558.704,331 km², o maior estado do país. Para dar conta desse espaço, o governo conta com 1.600 militares no Corpo de Bombeiros com base em 25 municípios.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Amazonas registrou 4.370 focos de calor entre 1º de setembro e 6 de outubro, atingindo 95% dos municípios. No mesmo período do ano passado, havia 1.198.


O Governo Federal também dispõe da estrutura do PrevFogo, ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em abril, o órgão autorizou a contratação de brigadistas para seis municípios do estado. A reportagem questionou quantos foram contratados, mas não recebeu resposta.

Um militar do Corpo de Bombeiros do Amazonas, que pediu para não ser identificado, diz que há uma sobrecarga de trabalho. Ainda segundo ele, faltam mais aeronaves para o combate ao fogo e que os agentes encontram dificuldade para apagar grandes incêndios.

Entre as causas das queimadas, o militar diz que viu incêndios surgindo em grandes fazendas privadas, em campos pequenos de agricultores e também em áreas de lixões.

O Governo do Amazonas afirmou, em nota, que tem feito reuniões sobre o tema para conter os impactos ambientais, proteger a população e intensificar a fiscalização no estado. Outra medida citada é a proibição de uso de fogo por 120 dias, com exceção das situações previstas em lei.

Tamém disse que, do ano passado para cá, aumentou de 11 para 25 o número de bases permanentes de bombeiros em cidades do interior e que o efetivo no estado passou de 692 para 1.651.

"Atualmente, cerca de mil servidores e brigadistas estão empenhados na Operação Amazonas+Verde, que atua diretamente em 33 municípios, com viaturas equipadas e capacidade operacional reforçada", declarou a administração estadual", declarou o governo amazonense.

O governo acrescentou que recebeu a aeronave Thrush S2R-510, capaz de transportar quase 2.000 litros de água, e que possui cinco viaturas Auto Bomba Tanque Florestal (ABTF).

Procurada, a Prefeitura de Manaus não respondeu aos questionamentos sobre a manutenção da rede de saúde, o planejamento em conjunto com o governo estadual e as próximas medidas.