SÃO PAULO — O bolso do brasileiro enfrenta uma crise sem precedentes. Pela primeira vez na história, o Brasil registrou a marca de 84 milhões de pessoas inadimplentes, de acordo com o mais recente levantamento da Serasa.

O número acende um alerta vermelho na economia nacional, indicando que quase metade da população adulta do país possui alguma pendência financeira ou está com o "nome sujo".

O crescimento do indicador reflete as dificuldades persistentes das famílias em fechar as contas no fim do mês. Especialistas apontam que a combinação de juros elevados, que encarecem o crédito e o parcelamento, somada ao custo de vida pressionado pela inflação de itens básicos — como alimentos, energia e combustíveis —, criou o cenário perfeito para o superendividamento.

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Radiografia da dívida

Segundo o relatório da Serasa, as contas básicas (água, luz e gás) e os cartões de crédito continuam sendo os principais motivos que levam os consumidores à inadimplência. O cartão, apontado por economistas como o maior vilão do orçamento doméstico devido aos juros rotativos agressivos, responde por uma fatia significativa das negativações.

O perfil dos endividados mostra que a crise atinge todas as faixas etárias, mas se concentra fortemente entre adultos de 26 a 41 anos, que estão em plena idade produtiva e, muitas vezes, chefiam famílias. Em termos de gênero, o volume de homens e mulheres inadimplentes se mantém equilibrado, evidenciando o impacto generalizado da crise financeira.

Impacto na economia

O recorde histórico traz consequências diretas para a retomada do crescimento econômico do país.

Com o nome restrito, o consumidor perde o acesso ao crédito, o que reduz o poder de compra e desaquece o comércio e o setor de serviços.

Para tentar reverter o cenário, mutirões de renegociação de dívidas têm sido promovidos tanto pela Serasa quanto por programas governamentais. No entanto, analistas alertam que o alívio temporário das renegociações precisa vir acompanhado de uma melhora real na renda do trabalhador e de uma educação financeira mais robusta para evitar que o consumidor volte a ficar inadimplente poucos meses depois.

O cenário exige cautela e planejamento. Enquanto as taxas de juros não apresentarem uma queda mais expressiva e o mercado de trabalho não oferecer salários mais competitivos, a barreira dos 84 milhões de negativados continuará a ser um fantasma a assombrar o varejo e o bem-estar das famílias brasileiras.