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A Alternativa para a Alemanha (AfD) ficou em primeiro lugar nas eleições estaduais de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental neste domingo, ampliando a pressão sobre o chanceler Friedrich Merz duas semanas depois da vitória da legenda de extrema direita na Saxônia-Anhalt. A União Democrata-Cristã (CDU), partido do chefe de governo, registrou seu pior desempenho em uma eleição estadual desde 1949, segundo pesquisas de boca de urna
De acordo com projeções das emissoras públicas ARD e ZDF, a AfD obteve entre 37% e 38% dos votos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, estado predominantemente rural no nordeste da Alemanha e parte do antigo território comunista. O Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda e integrante da coalizão federal de Merz, aparecia com entre 35,5% e 36,5%.
A CDU, por sua vez, tinha entre 5% e 5,5% dos votos, pouco acima do percentual mínimo necessário para garantir representação no Parlamento estadual. Merz, de 70 anos, classificou o resultado como um “desastre” para seu partido e disse assumir a responsabilidade. Se os números forem confirmados, este será o pior desempenho da legenda em qualquer eleição estadual desde a fundação da República Federal da Alemanha, em 1949.
— Os tempos estão mudando na Alemanha — comemorou Jan-Phillip Tadsen, deputado da AfD, em um bar de Schwerin, capital da região, onde militantes e dirigentes do partido celebraram os resultados com gritos e abraços.
‘Cordão sanitário’
Apesar da vitória, a AfD dificilmente conseguirá governar o estado, já que os outros principais partidos alemães descartam formar coalizões com a legenda. O isolamento faz parte da estratégia conhecida como “cordão sanitário”, adotada pelas demais forças políticas para impedir acordos com a extrema direita, embora os sucessivos avanços eleitorais da AfD tenham levantado novos questionamentos sobre a eficácia dessa política
O resultado representa a segunda vitória da AfD em uma eleição estadual no espaço de um mês. Em 6 de setembro, o partido ficou em primeiro lugar na Saxônia-Anhalt e chegou perto de conquistar maioria absoluta, em um resultado inédito que provocou repercussão dentro e fora da Alemanha. A legenda considera seus avanços regionais um primeiro passo em direção às eleições federais previstas para 2029.
Em pouco mais de uma década, a AfD passou de um movimento marginal para uma legenda que lidera as pesquisas nacionais de intenção de voto. O partido defende medidas mais duras para deportar estrangeiros sem direito de permanecer na Alemanha, o restabelecimento dos laços energéticos com a Rússia e a saída do país do euro, além de manter posições favoráveis aos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin.
Feito inédito em Berlim
Outra votação neste domingo também trouxe resultados negativos para Merz. Em Berlim, o partido de extrema esquerda Die Linke apareceu em primeiro lugar, com entre 24,5% e 26% dos votos, à frente da CDU, com 20%. A AfD também avançou na capital alemã, alcançando entre 13,5% e 16%, segundo as pesquisas de boca de urna.
— Em nossa cidade, o amor e a justiça triunfaram sobre o ódio — declarou a dirigente do Die Linke Elif Eralp, filha de imigrantes turcos, ao comemorar a vitória de seu partido sobre a AfD
O resultado representa um feito inédito para o Die Linke em Berlim. A legenda, que se opõe às grandes empresas, rejeita a ajuda militar alemã à Ucrânia e defende que o país deixe a Otan, fez campanha com propostas para enfrentar a crise habitacional da capital, incluindo a desapropriação de imóveis pertencentes a grandes proprietários corporativos.
Quase quatro milhões de eleitores estavam aptos a votar nas duas eleições regionais. Embora pleitos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Berlim normalmente tenham repercussão limitada fora da Alemanha, o desempenho da AfD ocorre em meio ao avanço da legenda nas pesquisas nacionais e às crescentes dificuldades enfrentadas por Merz após 16 meses no cargo.
Antes da votação, o chanceler cancelou uma viagem à Assembleia Geral das Nações Unidas e convocou uma reunião de crise da direção da CDU para discutir as possíveis repercussões dos resultados. Após a divulgação das projeções, Merz apareceu diante das câmeras e prometeu prosseguir com sua agenda de reformas, em meio a especulações de que uma nova derrota eleitoral poderia aumentar a pressão por sua saída.
— É um desastre — afirmou Merz sobre o resultado em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. — As reformas precisam acontecer. Assumo esta responsabilidade porque quero fazer nosso país avançar
Baixos índices de aprovação
Merz enfrenta índices de aprovação pessoal pouco acima de 10%. Roland Abold, do instituto Infratest Dimap, afirmou antes da divulgação das pesquisas de boca de urna que a situação do chanceler era “bastante dramática”. Segundo ele, uma pesquisa realizada em setembro mostrou que apenas 13% dos entrevistados estavam satisfeitos com a atuação política de Merz.
— É o índice mais baixo já registrado para um chanceler em exercício — disse Abold à AFP.
Quando chegou ao poder, em maio do ano passado, Merz prometeu reativar a economia alemã, reconstruir as Forças Armadas para aumentar a capacidade de dissuasão diante da Rússia e reduzir a imigração irregular, numa tentativa de responder às preocupações dos eleitores e conter o avanço da AfD. Desde então, porém, seu governo tem enfrentado dificuldades para implementar as reformas econômicas e sociais prometidas.
Eleito com a promessa de fazer a estagnada economia alemã voltar a crescer, Merz também enfrenta resistência a reformas nas áreas de Previdência, impostos e saúde, além de uma série de controvérsias provocadas por declarações públicas. A alta dos custos de energia e moradia esteve entre as principais preocupações dos eleitores.
— Aqui em Schwerin, com esses salários, você praticamente não consegue mais pagar por nada — afirmou a eleitora Carlotta Heick à agência Reuters.
‘Má sorte para Merz’
Alguns analistas relacionam parte das dificuldades enfrentadas pelo governo a fatores externos, entre eles as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e o aumento dos preços dos combustíveis. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico da China transformou um mercado tradicionalmente importante para as exportações alemãs em um concorrente industrial.
“Má sorte para Friedrich Merz”, escreveu Holger Schmieding, economista-chefe do banco Berenberg, ao citar o recente aumento dos preços do petróleo e o debate público sobre o futuro político do chanceler como fatores que agravam suas dificuldades. Schmieding avaliou, no entanto, que Merz provavelmente conseguirá atravessar a atual turbulência e completar seu mandato, previsto para terminar em 2029
Apesar da pressão, dirigentes importantes da CDU têm se colocado ao lado do chanceler. Na semana passada, oito chefes de governos estaduais conservadores declararam conjuntamente que a Alemanha precisa de “estabilidade agora mais do que nunca”, em vez de “discussões sobre nomes”, embora tenham evitado manifestar apoio pessoal a Merz.
Integrantes da cúpula da CDU também avaliam que substituir o chanceler seria difícil por razões constitucionais e deixaria um eventual sucessor diante dos mesmos problemas econômicos. Os resultados deste domingo, no entanto, acrescentam novas derrotas à sequência enfrentada pelo governo enquanto a AfD amplia sua presença eleitoral e mantém a liderança nas pesquisas nacionais.
(Com AFP)
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