Espaço para comunicar erros nesta postagem
Menos dias de trabalho, mais contratações, e uma possível corrida por profissionais. A discussão sobre o fim da escala 6x1 pode mudar não apenas a rotina de milhões de trabalhadores brasileiros, mas também a dinâmica do mercado de trabalho.
Uma pesquisa da A&M Performance, braço de otimização de negócios da Alvarez & Marsal, mostra que 57% das empresas ouvidas acreditam que precisarão contratar mais funcionários caso haja uma transição para o modelo 5x2. Entre as companhias mais dependentes da escala 6x1, aquelas em que mais da metade dos funcionários trabalha nesse regime, o percentual sobe para 74%.
Um dos problemas é encontrar gente para preencher essas vagas. A escassez de mão de obra já aparece como preocupação para 36% dos executivos consultados.
Para Mateus Figueiredo, da A&M Performance, o risco está menos no número de vagas que poderiam ser abertas isoladamente e mais na possibilidade de diversas empresas procurarem os mesmos profissionais ao mesmo tempo.
“Uma mudança regulatória atinge todas as empresas do setor na mesma data, então a ida ao mercado acontece ao mesmo tempo. Segmentos que já convivem com dificuldade de recrutamento tendem a sentir o efeito de forma amplificada”, afirma.
Empresas fazem as contas, mas ainda não reservam dinheiro
A pesquisa ouviu 72 profissionais de setores como indústria, varejo, serviços, saúde e logística, dos quais 69% participam diretamente das decisões relacionadas a mudanças na escala de trabalho.
O levantamento revela uma aparente contradição:
- 86% das empresas já fizeram algum tipo de simulação sobre os efeitos da mudança e
- 85% sabem quais funções e turnos seriam afetados.
Mesmo assim, 72% ainda não têm orçamento aprovado para colocar a transição em prática.
Das 72 companhias analisadas, apenas três são consideradas efetivamente preparadas, por já terem feito simulações, detalhado os impactos e aprovado recursos para a mudança.
Segundo Figueiredo, fazer uma primeira conta é bem diferente de colocar a transformação no orçamento. As simulações realizadas até agora são, em boa parte, estimativas gerais. Preparar a empresa de fato exige calcular os efeitos unidade por unidade, função por função e turno por turno.
Há também uma razão para a cautela: 58% das empresas dizem que pretendem esperar uma eventual obrigatoriedade legal para agir.
“Enquanto o texto não avança no Senado e o regime de transição não está definido, comitês de orçamento tendem a segurar a alocação de recursos para um cenário que ainda pode mudar de desenho”, diz Figueiredo.
O risco, segundo ele, é deixar a preparação para tarde demais. Dependendo do formato e do prazo de uma eventual mudança, as empresas podem ter de redesenhar escalas, negociar com sindicatos e contratar funcionários em uma janela menor do que seus próprios ciclos de planejamento e orçamento.
Menos horas podem acelerar automação e IA
Contratar, porém, não é a única saída que está sendo considerada.
Um quarto das empresas pesquisadas pretende tentar compensar parte do aumento de custos com ganhos de produtividade. Para Figueiredo, isso pode acelerar investimentos em automação e inteligência artificial que já estavam previstos.
Essa também é a aposta de Rafael Miranda, COO e cofundador da AKR Brands. Para ele, uma redução das horas disponíveis exigiria que as empresas revisassem processos antes de simplesmente ampliarem seus quadros.
“Esse cenário também pode acelerar um movimento muito importante: a revisão dos processos, a otimização e a automatização das atividades", diz.
Segundo o executivo, quanto mais eficiente for a operação, menor será a necessidade de simplesmente compensar a redução da jornada aumentando o quadro de pessoas. Na prática, empresas que conseguirem produzir o mesmo com menos horas trabalhadas terão uma vantagem importante em um cenário de restrição de mão de obra.
Miranda acredita que a disputa por trabalhadores também pode obrigar as companhias a olhar além do salário.
“As empresas precisarão se tornar cada vez mais atrativas, não apenas em remuneração, mas também em ambiente, desenvolvimento, liderança e propósito.”
A conta pode passar de 10%
O maior desafio apontado pelas empresas, entretanto, é financeiro. Para 68% dos participantes, o aumento dos custos com pessoal está entre os principais riscos de uma eventual mudança.
Entre as companhias altamente dependentes da escala 6x1, 38% calculam que os custos podem subir mais de 10%.
Segundo Miranda, a primeira reação poderia ser recorrer a horas extras para preencher as lacunas da escala sem contratar imediatamente. No médio prazo, porém, algumas operações teriam de aumentar o número de funcionários.
Na indústria, a equação é ainda mais complexa. Das 18 indústrias de transformação participantes da pesquisa, 15 esperam precisar contratar mais pessoas.
“Em uma indústria, não estamos falando apenas de horas de trabalho individuais. Existem máquinas, setups, trocas de turnos e toda uma estrutura produtiva que precisa ser considerada”, diz Miranda.
Setores com funcionamento intenso nos fins de semana também aparecem entre os mais expostos. No varejo, nos serviços e na saúde, reduzir os dias trabalhados por funcionário não significa que lojas, hospitais ou outras operações possam simplesmente fechar aos sábados e domingos.
Entre todos os participantes, 32% temem falhas de cobertura nos períodos de pico e 28% apontam risco de queda no nível de serviço.
Produtos e serviços podem ficar mais caros
Parte dessa conta também pode chegar ao consumidor. Quase três em cada dez empresas (28%), consideram algum nível de repasse dos custos para os preços.
Figueiredo ressalta que o resultado não pode ser interpretado como uma projeção de inflação, já que a amostra não representa estatisticamente toda a economia brasileira. Ainda assim, o levantamento mostra que reajustar preços está entre as alternativas avaliadas pelas companhias.
A capacidade de fazer isso dependerá da concorrência e das margens de cada negócio.
“Um supermercado que disputa cliente por centavos na gôndola tende a ter menos espaço para reajustes do que um serviço especializado com poucos concorrentes na mesma região”, afirma.
Há ainda um possível efeito em cadeia: uma companhia pode enfrentar o aumento de sua própria folha e, simultaneamente, pagar mais pelos produtos e serviços fornecidos por outras empresas submetidas à mesma mudança.
Para Miranda, pequenas e médias empresas podem encontrar dificuldade adicional por operarem, em muitos casos, com margens mais estreitas.
Só 11% já negociam com sindicatos
A preparação também está atrasada em outra frente. Apenas 11% das empresas pesquisadas começaram negociações com sindicatos, embora mudanças nas escalas, jornadas e compensações de fim de semana possam exigir acordos trabalhistas.
É nesse ponto que o levantamento expõe um dos maiores desafios de uma eventual transição: as empresas já sabem, em boa medida, onde a mudança vai doer, mas poucas transformaram esse diagnóstico em dinheiro, contratação ou negociação.
Para os trabalhadores, o 5x2 pode significar uma nova organização da vida profissional. Para as empresas, pode significar uma corrida simultânea por mão de obra, produtividade e tecnologia.
“A janela de preparo é agora, enquanto o texto está no Senado, e não depois da promulgação”, diz Figueiredo.