Fontes do governo dos Estados Unidos relataram que têm acompanhado no detalhe a crise que eclodiu no Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada e que, ontem, levou ao afastamento do diretor-geral da Polícia Federal (PF) Andrei Rodrigues.

Um funcionário da diplomacia de Donald Trump comentou em tom de celebração que "já era hora" de Andrei ser afastado da PF —ato que ocorreu após determinação do ministro do STF André Mendonça.

Além de contar com informações trazidas por sua diplomacia em Brasília, o governo Trump tem sido municiado tanto pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) quanto pelo comentarista Paulo Figueiredo, que mantém interlocução constante com membros da administração americana, como Darren Beattie, conselheiro-sênior para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado e uma das principais vozes dentro do órgão sobre o Brasil.

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Em abril, Andrei foi pivô de uma tensão com o Departamento de Estado, depois que uma operação do ICE (Agência de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA), em Miami, na Flórida, prendeu o ex-chefe da Abin Alexandre Ramagem, condenado no processo judicial sobre tentativa de golpe de Estado que também levou à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O processo foi relatado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Ramagem deixou o Brasil antes de ser preso para cumprir a pena. O delegado Marcelo Ivo Carvalho, que atuava desde 2023 como oficial de ligação da PF junto ao ICE, na Flórida, o incluiu entre os alvos da polícia migratória americana por sua condenação no caso.

Quando Ramagem foi detido, os agentes do ICE chegaram a comemorar a captura de um "imigrante foragido", até que bolsonaristas nos EUA soaram o alarme aos aliados políticos no Departamento de Estado, em Washington, que providenciaram não apenas a soltura de Ramagem como a expulsão de Carvalho dos EUA.

A cassação repentina do visto do delegado brasileiro também serviu como uma resposta dada por Beattie à restrição imposta pelo governo Lula à sua entrada no Brasil para visitar o ex-presidente Bolsonaro na prisão, no começo do ano.

Em resposta, Andrei Rodrigues também ordenou que um agente dos EUA que atuava em Brasília deixasse o país imediatamente.

Embora a crise atual envolvendo Moraes não tenha nada a ver com as acusações de que ele seria um censor da expressão de residentes dos EUA em redes sociais e, por isso, um violador de direitos humanos —o que serviu de justificativa para a imposição pelo Tesouro dos EUA das sanções da Lei Global Magnitsky contra o ministro no ano passado—, integrantes do governo Trump afirmam ver como uma "aposta segura" a retomada da Magnitsky contra Moraes nas próximas semanas. A medida havia sido desfeita depois de uma negociação entre Lula e Trump.

Alvo histórico de aliados de Trump —incluindo o ex-porta-voz do republicano, Jason Miller, e o empresário Elon Musk—, Moraes viu uma série de mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro enviadas a seu número tornadas públicas por decisão de Mendonça. As supostas mensagens somadas ao detalhamento do contrato milionário do escritório da esposa de Moraes com o Banco Master aumentaram os questionamentos sobre a conduta ética do magistrado.

O entendimento do Departamento de Estado, porém, é que o escândalo vai além de Moraes, e atinge as pretensões eleitorais de Lula, candidato à reeleição no pleito em outubro. Em conversa com o UOL, integrantes da gestão Trump relembraram que Lula "defendeu Moraes em conversas com o presidente dos EUA", em referência à retirada da Magnitsky contra o ministro. Mas fizeram questão de dizer que neste momento são apenas "observadores" dos acontecimentos.

Atualmente, o governo dos EUA está dividido sobre os caminhos a tomar na eleição do Brasil. Uma ala, composta por membros do Departamento de Estado de Marco Rubio, defende interferência no processo eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro, um aliado óbvio de Trump na região que prometeu inclusive conduzir a transição de poder em conjunto com Washington.

Outra ala do governo americano defende distância e pragmatismo, para não arriscar queimar as pontes com o Brasil caso Lula seja reconduzido ao Planalto.

Rubio está neste momento em viagem na América do Sul, mas o Brasil não está no itinerário. O tour do secretário de Estado inclui a Colômbia, o Equador e o Peru, países atualmente comandados por aliados de direita de Trump. Enquanto isso, em Washington, a Embaixada do Brasil fará na sede da OEA uma celebração pelo Dia da Independência do país e, segundo fontes ouvidas pela reportagem, não espera a presença de integrantes do órgão comandado por Rubio.

FONTE/CRÉDITOS: Uol