A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) marcou o primeiro debate entre candidatos à Presidência da República, realizado pela Band neste domingo, 23. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, também não participou do encontro.

Sem os três no palco, Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) usaram parte do encontro para criticar os líderes das pesquisas logo nos primeiros minutos.

O confronto começou antes mesmo de os candidatos entrarem no estúdio. Augusto Cury protestou em frente à sede da Band e afirmou que não participaria do encontro. Depois, porém, entrou no estúdio e participou normalmente do debate.

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Já nas considerações iniciais, Renan Santos adotou o discurso mais duro contra os ausentes. “Esses dois criminosos não vieram ao debate. Vivem brigando por aí na internet”, afirmou, em referência a Lula e Flávio. Na sequência, chamou os adversários de “covardes e canalhas”.

Ronaldo Caiado também cobrou a presença de Lula e Flávio. O ex-governador de Goiás afirmou que a sociedade esperava a participação dos dois e relacionou as ausências aos índices de rejeição dos pré-candidatos. Segundo ele, os adversários teriam de responder sobre escândalos relacionados a seus respectivos campos políticos.

Caiado aproveitou a primeira intervenção para defender um “choque de credibilidade” no governo federal e associou a recuperação econômica à necessidade de controle das contas públicas. O governador citou a situação fiscal encontrada por Michel Temer ao assumir a Presidência, em 2016, e defendeu que um novo governo não eleve o endividamento do país.

Cury, por sua vez, direcionou sua primeira crítica a Lula e escolheu a educação como tema. “Lula da Silva, você deveria estar aqui para falar dos números da educação”, afirmou. O escritor e psiquiatra criticou o desempenho dos estudantes e defendeu mudanças no modelo de ensino, com maior estímulo ao raciocínio lógico, à interpretação e à autonomia dos alunos.

Renan e Cury divergem sobre radicalização

Um dos principais embates da noite ocorreu entre Renan Santos e Augusto Cury. Ao responder a uma pergunta de Renan, Cury afirmou que o Brasil está “doente” e “radicalizado” e procurou se afastar da divisão entre direita e esquerda. Também criticou o modelo do Bolsa Família, que classificou como excessivamente assistencialista, e defendeu ajustes no programa.

Renan reagiu com novas críticas ao governo Lula. “Não sou psicólogo, mas sou um brasileiro indignado”, afirmou. Na sequência, voltou a chamar o presidente de “canalha” e disse que o governo reduziu a esperança dos brasileiros de melhorar de vida. O pré-candidato também atacou eleitores que apoiam Lula.

A resposta de Cury teve como alvo o tom adotado por Renan. “Você tem um nível de agressividade que me assombra”, disse. Para Cury, discursos agressivos limitam a capacidade das pessoas de formar as próprias opiniões.

O confronto transformou a radicalização política em tema do próprio debate, após uma sequência de ataques de Renan a Lula e a seus eleitores.

Cury também defendeu políticas de estímulo ao empreendedorismo como parte de sua plataforma econômica.

Segurança pública e violência contra a mulher entram no debate

segurança pública apareceu entre os principais temas da noite. Renan defendeu medidas mais duras contra organizações criminosas, entre elas superpresídios e maior integração entre União e estados. Também citou o uso de instrumentos como estado de defesa e operações de Garantia da Lei e da Ordem, a GLO, mecanismo constitucional que permite o emprego das Forças Armadas em situações específicas.

Em outro momento, Cury questionou Caiado sobre o feminicídio e a violência contra a mulher. O candidato do Avante citou mortes provocadas por parceiros e ex-parceiros e afirmou que nem os governos de Jair Bolsonaro nem os de Lula conseguiram solucionar o problema. Também apontou diferenças nas condições de crédito oferecidas a homens e mulheres.

Caiado respondeu com medidas adotadas em Goiás. O governador citou o uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores e de botões do pânico para vítimas sob ameaça. Ele defendeu ampliar esse tipo de política em âmbito nacional.

Educação opõe propostas de Caiado e Renan

A educação voltou ao centro do debate em uma pergunta de Caiado a Renan sobre a eficiência do gasto público. Renan afirmou que o problema brasileiro não está apenas na quantidade de recursos disponíveis, mas na ausência de metas e mecanismos de cobrança por resultados.

O candidato do Missão defendeu uma “lei de responsabilidade gerencial”, que vincularia recursos públicos ao cumprimento de objetivos. Como contraponto, criticou despesas de governos locais com shows "do Wesley Safadão" e eventos, que, segundo ele, retiram recursos de áreas prioritárias.

Caiado apresentou como exemplo as mudanças feitas na rede estadual de Goiás e disse ter alterado a Constituição estadual para aproximar a grade curricular das necessidades dos estudantes. O governador também citou o desempenho das escolas goianas em indicadores nacionais e afirmou que a educação é o principal caminho para a recuperação econômica e social do país.

Renan encerrou o bloco com críticas tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo. Segundo ele, os dois grupos não apresentam um projeto capaz de transformar o Brasil em uma das maiores economias do mundo. O candidato defendeu maior integração entre educação e mercado de trabalho, com formação de mão de obra dentro do país.

As ausências de Lula e Flávio Bolsonaro voltaram ao centro do debate no terceiro bloco, desta vez em uma pergunta de Ronaldo Caiado a Renan Santos. O ex-governador apresentou ao adversário um cenário no qual ele tivesse de escolher entre os dois candidatos.

Renan respondeu que “o único candidato que o Lula é capaz de vencer é o Flávio” e voltou a atacar os dois adversários por não terem comparecido ao debate. Ao falar sobre Flávio, fez referência a um episódio de um debate anterior no qual o senador teve problemas de saúde e questionou suas relações políticas. “Eles estão fugindo como cadelas”, afirmou.

Caiado aproveitou a resposta para também questionar as ausências. O ex-governador cobrou explicações sobre suspeitas envolvendo os grupos políticos dos dois adversários e fez um jogo de palavras com o filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ao afirmar que Lula teria um “dark lobby”. Na fala, citou Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Renan afirmou ainda que os dois campos políticos querem manter uma disputa polarizada. “Eles querem um jogo de carta marcada”, disse. Segundo ele, Flávio busca preservar o comando político da direita, enquanto Lula tenta manter a força eleitoral da esquerda. “Esquerda e direita estão roubando vocês juntos”, afirmou.

Crime organizado e corrupção entram no terceiro bloco

Antes do confronto sobre Lula e Flávio, Renan perguntou a Augusto Cury o que ele faria no primeiro dia de governo caso fosse eleito presidente. Cury respondeu com críticas à corrupção e afirmou que a sucessão de governos não conseguiu eliminar o problema. O candidato defendeu tratamento mais rigoroso para crimes de corrupção e relacionou a dívida pública às consequências que serão enfrentadas pelas próximas gerações.

Renan voltou a defender uma política de segurança mais dura. O candidato afirmou que pretende “passar a rapa” no crime organizado e defendeu penas que poderiam manter integrantes de facções presos por décadas. Ao descrever sua proposta, afirmou que criminosos encontrariam “policiais atirando em vagabundo como se não houvesse amanhã”.

FONTE/CRÉDITOS: Exame