As sabatinas dos candidatos à Presidência terminaram sem dar ao mercado financeiro respostas claras sobre como o próximo governo pretende conter os gastos e controlar o avanço da dívida pública. Analistas ouvidos pelo E-Investidor avaliam que os presidenciáveis apresentaram medidas pontuais, mas pouco detalharam seus planos de ajuste fiscal.

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, os entrevistados “deixaram a desejar” na discussão de propostas sobre as contas públicas do País. “Houve muita promessa de cortar ministérios, cargos e desperdícios, mas pouca explicação sobre como conter as despesas obrigatórias e interromper o crescimento da dívida”, afirma.

Romeu Zema (Novo) defendeu um ajuste fiscal como caminho para reduzir a Selic a 6% ao ano. Ronaldo Caiado (PSD) propôs limitar o crescimento das despesas à inflação e revisar subvenções, incentivos fiscais, salários e emendas impositivas. Renan Santos (Missão) falou sobre desvincular os pisos de gastos de saúde e educação, além de propor uma nova reforma da Previdência. Augusto Cury (Avante) defendeu elevar a tributação das bets, cortar o número de ministérios e aumentar a produtividade das empresas para enfrentar o déficit previdenciário.

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Entre os líderes nas pesquisas eleitorais, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rejeitou a avaliação de que o País esteja em uma situação fiscal insustentável, comparando o Brasil com outras economias globais. Já Flávio Bolsonaro (PL) não detalhou medidas de ajuste, mas afirmou que, se o presidente fosse Jair Bolsonaro (PL), a taxa de juros estaria em 7%.

Na avaliação de Bruna Pacheco, sócia da GT Capital, o principal ponto de atenção para os investidores não está apenas nas propostas apresentadas, mas na clareza sobre como elas serão financiadas e, principalmente, na disposição de cada candidato em enfrentar o desafio fiscal. “Para os mercados, a eleição tende a ser precificada muito mais pela percepção de risco do que por promessas isoladas”, diz.

Segundo ela, um governo que consiga transmitir credibilidade em relação à trajetória da dívida, ao controle dos gastos e à sustentabilidade das contas públicas pode abrir espaço para uma redução do prêmio de risco, dos juros de longo prazo e da pressão sobre o câmbio, favorecendo os ativos de risco. No cenário contrário, uma percepção de deterioração fiscal pode manter os juros elevados por mais tempo, pressionar o câmbio e aumentar a volatilidade da Bolsa.

Olhando à frente, Perri, da Forum Investimentos, encara que o resultado das eleições será apenas uma parte da história. “Em uma eventual reeleição de Lula, o mercado vai procurar alguma sinalização mais clara de controle da dívida. Uma vitória da oposição pode ser recebida positivamente, mas esse movimento só continua se houver um programa viável e apoio no Congresso”, afirma.

Para o economista, a definição da equipe econômica e as primeiras medidas adotadas pelo próximo governo terão mais peso para os mercados do que as declarações dadas na temporada eleitoral.

As propostas dos candidatos para a economia

A seguir, veja o que os candidatos à Presidência responderam nas sabatinas da TV Globo ao serem questionados sobre suas propostas para a economia:

Augusto Cury

Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, em sabatina na Globo. Foto: Manoella Mello/Globo

O candidato do Avante à Presidência da República, Augusto Cury, afirmou que uma taxação de 52% sobre as bets seria “razoável”. Segundo ele, o aumento da tributação das empresas de apostas ajudaria o governo a reforçar o caixa e contribuiria para o ajuste das contas públicas.

Ele também defendeu um reajuste para o Bolsa Família e afirmou não ser a favor de uma nova reforma da Previdência “em hipótese alguma”. O candidato propôs o aumento da produtividade das empresas como forma de enfrentar o déficit no sistema previdenciário.

Caso eleito, o Cury disse ainda que pretende cortar de oito a dez ministérios, como forma de enxugar e modernizar a máquina pública. Contudo, não quis detalhar quais pastas deixariam de existir.

Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro com Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo. Foto: Manoella Mello/Globo

Na entrevista, Flávio evitou detalhar qual será a dimensão do ajuste fiscal que promoverá, caso eleito, mas repetiu que, se o presidente fosse Jair Bolsonaro, a taxa de juros estaria em 7%, contra os 14% atuais.

Ao ser questionado sobre qual será a meta de redução da dívida pública na relação com o Produto Interno Bruto (PIB), ele não respondeu. Solicitado pelos jornalistas a voltar ao assunto, Flávio disse: “Vou chegar lá, vou chegar lá”, mas não citou números.

Como o Estadão/Broadcast mostrou nesta reportagem, o candidato do PL chegou a realizar na última quinta-feira (28) um jantar com líderes dos principais bancos e de grandes empresas do País. Flávio falou de segurança pública e combate à corrupção, além do plano de ajuste fiscal, mas sem detalhar medidas que tomaria em seu governo, caso vença as eleições.

Luiz Inácio Lula da Silva

Lula, presidente da República e candidato à reeleição, concede entrevista à Globo. Foto: Manoella Mello/Globo

Questionado sobre o aumento da dívida pública durante seu atual governo, Lula rejeitou a avaliação de que o País esteja em uma situação fiscal insustentável. O presidente lembrou o desempenho fiscal de seus primeiros mandatos e afirmou que teve superávit primário durante oito anos. “Nunca tive problema fiscal nesse País”, disse.

Lula também relacionou a evolução da dívida ao crescimento econômico e afirmou que a economia brasileira voltou a crescer após seu retorno à Presidência. Comparou ainda o País a outras grandes economias, como Estados Unidos, Japão e Itália, e afirmou que os Estados Unidos têm cerca de US$ 40 trilhões em dívida.

“A mim não preocupa a dívida pública”, afirmou. “Se tem alguém nesse País que tem responsabilidade fiscal sou eu”, acrescentou.

Na análise de Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, o presidente não apresentou um plano fiscal. “No que toca a ajustes, Lula não trouxe nada claro e não afirmou a necessidade de fazê-los”, comenta.

Conforme apuração do Estadãoo petista convidou banqueiros e empresários para um jantar nesta segunda-feira (31) em Brasília. A reunião ocorre quatro dias depois de Flávio Bolsonaro ter apresentado seu plano de governo para representantes do mercado financeiro em São Paulo.

Renan Santos

Renan Santos no Jornal Nacional. Foto: Manoella Mello/Globo

Na sabatina, Renan Santos afirmou ser importante reduzir a velocidade de aceleração da relação dívida/PIB, defendendo, para isso, o corte de gastos e a desvinculação dos pisos de saúde e educação.

“A beleza dos cortes de gastos é que eles estarão vinculados ao investimento em infraestrutura, que é uma coisa que o Brasil está precisando para poder voltar a crescer”, acrescentou.

Durante a entrevista, o candidato também propôs a realização de uma reforma da Previdência. “Vamos precisar fazer uma reforma. Não sou populista fiscal. Muitos vão mentir que não é necessário uma reforma, mas é”, declarou.

Romeu Zema

O candidato Romeu Zema foi sabatinado nos estúdios da TV Globo. Foto: Manoella Mello/Globo

Romeu Zema afirmou que, caso eleito, promoverá medidas de ajuste fiscal para que a taxa básica de juros, a Selic, caia a 6% ao ano.

Segundo Sanchez, da Ativa Investimentos, o candidato apresentou uma análise correta ao apontar que a atual taxa de juros elevada é resultado, em parte, da desancoragem das expectativas de inflação e fiscais, quadro que poderia ser revertido com a adoção de um novo programa de governo. “Talvez, porém, o candidato tenha sido demasiado otimista ao alegar que a Selic iria a 6%”, pondera.

Na sabatina, Zema admitiu trabalhar com a possibilidade de manter a atual política de valorização do salário mínimo, se as contas públicas permitirem, e disse que primeiro quer tentar arrecadar mais recursos para a Previdência Social por meio do aumento da formalização do emprego antes de alterar a idade mínima da aposentadoria.

“Por ora, não”, disse ele ao ser questionado se mexeria na idade mínima. “Nós vamos mexer à medida em que a expectativa de vida aumentar e depois de ver se não conseguimos arrecadar mais com a maior formalização”, afirmou.

Ronaldo Caiado

Ronalodo Caiado com Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo. Foto: Manoella Mello/Globo

Quando questionado sobre as prioridades de corte de verba e sobre o quanto seria economizado para alcançar o ajuste fiscal, Ronaldo Caiado mencionou uma proposta de limitar as despesas à correção da inflação e listou categorias amplas a serem “adequadas”: subvenções, incentivos fiscais, corrupção, salários em excesso e emendas impositivas.

Perguntado de forma direta sobre qual seria sua proposta para garantir a sustentabilidade da previdência diante do envelhecimento populacional, Caiado recusou-se a dar detalhes técnicos da economia, exclamando: “Nós não estamos aqui numa mesa examinadora”.

Sanchez, da Ativa Investimentos, avalia que, em geral, o candidato foi evasivo no endereçamento das questões fiscais.

Ibovespa tem dia de alta após pesquisas e sabatinas

Além das sabatinas, o mercado digere nesta segunda-feira as pesquisas eleitorais Atlas/Bloomberg e BTG/Nexus, divulgadas pela manhã. Nas duas, o ponto comum foi que o escritor Augusto Cury alcançou o terceiro lugar na disputa presidencial pelo primeiro turno. O candidato do Avante chegou a atingir dois dígitos no levantamento BTG/Nexus, saltando de 2% a 11% das intenções de voto. No estudo Atlas/Bloomberg, ele atingiu 7,8%, após sair de 1,6% na pesquisa passada.

O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro seguem na liderança. O petista tem 43,4% dos votos contra 33,7% de Flávio no primeiro tempo, segundo a pesquisa Atlas. No levantamento BTG/Nexus, Lula marca 39% e Flávio, 33%.

Os dados da Atlas foram coletados entre os dias 25 e 30 de agosto e da BTG/Nexus entre 28 e 30, registrando o movimento do eleitorado após o debate presidencial promovido por Band e Estadão, com parceria de TV Cultura, Gazeta e Jovem Pan, no dia 23, as sabatinas promovidas pela TV Globo, entre os dias 25 e 30, e o início do horário gratuito eleitoral, no dia 28.

De olho no cenário eleitoral, o Ibovespa sobe 1,02% aos 177.452,61 pontos nesta sessão, enquanto o dólar recua 0,23% cotado a R$ 5,1847. Os juros futuros têm desempenho misto, operando próximos à estabilidade nos vencimentos mais curtos e em queda nos vencimentos longos.

FONTE/CRÉDITOS: Estadão