FORTALEZA — A empresa espanhola Sacyr Construccion S/A do Brasil foi declarada vencedora da concorrência para a construção de três estações subterrâneas da Linha Leste do Metrô de Fortaleza. A proposta vencedora alcançou R$ 1.230.612.738,18, aproximadamente R$ 1,23 bilhão.

O resultado da Concorrência Nacional Eletrônica nº 20260001, conduzida pela Secretaria da Infraestrutura do Ceará (Seinfra), foi publicado no Diário Oficial da União em 18 de setembro de 2026. O certame prevê a implantação das estações Sé, Luíza Távora e Leonardo Mota, que haviam sido retiradas do escopo original da primeira fase do empreendimento.

Apesar da divulgação do resultado, é importante distinguir a vitória na licitação da efetiva contratação. A declaração da empresa como vencedora encerra a etapa de julgamento, mas a formalização do contrato e o início das obras ainda dependem dos procedimentos administrativos posteriores.

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O que a Sacyr terá de fazer

O modelo escolhido pelo Governo do Ceará é de contratação integrada. Isso significa que a empresa vencedora não ficará responsável apenas pela execução física das estações.

O objeto inclui:

  • elaboração e desenvolvimento do projeto básico;
  • elaboração do projeto executivo;
  • execução integral das obras;
  • serviços de engenharia;
  • fornecimento dos equipamentos necessários;
  • execução de serviços especiais relacionados à implantação das estações.

O valor global apresentado pela Sacyr foi de R$ 1.230.612.738,18. A contratação, portanto, reúne em um único empreendimento diferentes etapas que normalmente podem ser distribuídas entre projetos, obras e fornecimento de equipamentos.

Onde ficarão as três novas estações

As três estações fazem parte do traçado da Linha Leste que atravessará áreas estratégicas de Fortaleza.

Estação Sé

A Estação Sé ficará na região central, nas proximidades do Centro Histórico de Fortaleza. O projeto prevê a estrutura entre as ruas Costa Barros, São José, Senador Almir Pinto e Coronel Ferraz, ao sul do Parque Pajeú e nas imediações do Paço Municipal e da Catedral Metropolitana.

A localização coloca a estação em uma área de grande circulação de pessoas e próxima a importantes equipamentos urbanos da região central.

Estação Luíza Távora

A estação será implantada na região da Praça Luíza Távora, entre as ruas Carlos Vasconcelos e Monsenhor Bruno.

Ela ficará entre a região atendida pela Estação Colégio Militar e o restante do percurso em direção ao Papicu, integrando o conjunto de estações subterrâneas planejado para a Linha Leste.

Estação Leonardo Mota

A Estação Leonardo Mota será implantada na Avenida Santos Dumont, entre a Rua Coronel Linhares e a Avenida Senador Virgílio Távora, conforme a configuração divulgada para o empreendimento.

Ela será uma das últimas estações do trecho em direção ao Papicu.

Por que essas estações estão sendo licitadas agora?

A resposta está na própria história da Linha Leste.

O projeto originalmente concebido pelo Governo do Ceará era maior. A previsão inicial incluía aproximadamente 13,3 quilômetros de via dupla, 13 estações e a aquisição de 20 trens.

A implantação começou em 2013, mas o primeiro contrato, firmado com o Consórcio Cetenco/Acciona, acabou rescindido em fevereiro de 2018 depois de paralisações e problemas na execução.

O projeto precisou então ser reformulado. Com a redução dos recursos federais disponíveis, o escopo foi diminuído e seis quilômetros de vias e três estações foram retirados da etapa que seria relic itada.

As três estações posteriormente excluídas são justamente Sé, Luíza Távora e Leonardo Mota.

Em 2018, uma nova licitação foi realizada para a chamada Fase 1 da Linha Leste, com aproximadamente 7,3 quilômetros entre Chico da Silva e Papicu.

O vencedor foi o Consórcio FTS Linha Leste, formado à época pela Construtora Ferreira Guedes e pela Sacyr Construccion. O contrato inicial foi de R$ 1.469.446.061,46.

Sacyr já está dentro da Linha Leste

A nova licitação cria uma situação particularmente relevante: a Sacyr não é uma empresa que está chegando agora ao empreendimento.

A companhia espanhola já participa da implantação da Linha Leste por meio do Consórcio FTS, responsável pelo contrato de 2018.

A nova disputa, entretanto, foi realizada de maneira separada. Desta vez, a Sacyr concorreu individualmente, sem integrar consórcio, e apresentou a proposta vencedora de R$ 1,230 bilhão.

Assim, caso o contrato seja formalizado e as autorizações necessárias sejam emitidas, a empresa poderá assumir uma nova frente de trabalho dentro do mesmo grande empreendimento metroviário.

Histórico de atrasos e multas

A escolha da empresa ocorre em meio a um histórico de atrasos e sucessivas alterações no cronograma da Linha Leste.

É importante, porém, fazer uma distinção: as sanções documentadas em relação aos atrasos foram aplicadas ao Consórcio FTS, e não descritas pelas fontes oficiais como uma multa individual contra a Sacyr.

Em maio de 2026, o Diário do Nordeste informou que o Consórcio FTS havia recebido duas multas que somavam mais de R$ 1,5 milhão, aplicadas pela Seinfra em razão de atrasos não justificados relacionados à obra da Estação Colégio Militar.

Segundo a Seinfra, as sanções estavam relacionadas ao descumprimento de prazos previstos no cronograma executivo nos anos de 2021 e 2022.

Documentos do Tribunal de Contas da União também registram que, durante a execução do contrato, a Seinfra informou ter aplicado quatro multas ao Consórcio FTS, além de advertências e reuniões periódicas para cobrar o cumprimento das metas.

O TCU registrou ainda que havia dificuldades relacionadas a paralisações de frentes de trabalho e problemas na chegada de peças e equipamentos importados, além dos impactos atribuídos pelo Estado à pandemia de Covid-19.

Portanto, a formulação mais precisa é dizer que a Sacyr integra o grupo empresarial responsável por um contrato que recebeu sanções por atrasos, e não afirmar que a nova licitação foi concedida a uma empresa que recebeu individualmente determinada multa por atraso.

TCU já apontou atrasos relevantes

O histórico da obra também é acompanhado há anos pelo Tribunal de Contas da União.

Na fiscalização realizada sobre o contrato de 2018, o TCU apontou atraso na execução das obras e determinou que a Seinfra considerasse a responsabilidade do consórcio contratado pelo descumprimento do cronograma físico-financeiro.

Em auditoria posterior, o tribunal registrou que o contrato passou por numerosos aditivos.

O valor original de R$ 1,469 bilhão chegou a aproximadamente R$ 2,616 bilhões, conforme documentação do TCU, após alterações contratuais, reajustes e reequilíbrio econômico-financeiro.

O TCU também registrou que o contrato acumulava 17 aditivos e que o cronograma de conclusão havia sido sucessivamente alterado.

Em documentos de fiscalização, o tribunal observou ainda que o empreendimento precisava de recursos adicionais para garantir sua conclusão.

Uma obra que começou em 2013

A Linha Leste é um dos projetos de infraestrutura de transporte mais antigos ainda em implantação em Fortaleza.

A primeira contratação ocorreu em 2013. O contrato original previa uma obra muito maior, mas acabou rescindido em 2018.

O TCU registra que a rescisão do primeiro contrato provocou impactos no cronograma de entrega do empreendimento e levou à realização de uma nova licitação.

A segunda contratação, de 2018, permitiu a retomada de parte do projeto.

Entretanto, o empreendimento continuou enfrentando alterações, aditivos e problemas de cronograma.

Em fiscalização do Fiscobras, o TCU registrou que o contrato, originalmente de R$ 1,469 bilhão, havia alcançado R$ 2,616 bilhões. Também apontou que o prazo de conclusão foi novamente alterado para outubro de 2028.

Quanto já está sendo gasto?

O novo contrato de R$ 1,23 bilhão precisa ser analisado separadamente do contrato atualmente em execução.

São duas contratações distintas.

A primeira é o Contrato nº 009/Seinfra/2018, executado pelo Consórcio FTS e cujo valor atualizado chegou a R$ 2,616 bilhões.

A segunda é a nova contratação para as três estações que haviam sido retiradas do escopo, com valor de R$ 1,230 bilhão.

Somados apenas esses dois valores, chega-se a aproximadamente R$ 3,85 bilhões, mas essa soma não deve ser interpretada automaticamente como o custo final da Linha Leste, porque os contratos possuem objetos, períodos e componentes diferentes.

O próprio TCU já advertiu que o empreendimento como um todo envolve outras necessidades de investimento e que os recursos necessários para sua conclusão precisam ser acompanhados.

De onde vem o dinheiro para as três estações?

A retomada das três estações está associada aos recursos do Novo PAC.

Segundo documentação analisada pelo TCU, o Termo de Compromisso nº 970646/2024 prevê R$ 1 bilhão para a complementação da implantação da Linha Leste, incluindo as estações Sé, Luíza Távora e Leonardo Mota.

O problema é que estimativa anterior da Seinfra apontava que somente essas três estações poderiam demandar aproximadamente R$ 1,178 bilhão, valor superior ao R$ 1 bilhão inicialmente previsto no Novo PAC.

O TCU registrou que seriam necessárias outras fontes de recursos para complementar o financiamento. Entre elas estavam previstos recursos do BNDES e do Tesouro Estadual.

A proposta vencedora da Sacyr, de R$ 1,230 bilhão, ficou, portanto, acima da previsão de R$ 1 bilhão destinada pelo Novo PAC às três estações.

O que o TCU apontou sobre o financiamento

Em fiscalização mais recente, o Tribunal de Contas da União identificou preocupação com a suficiência das dotações para concluir o empreendimento.

O tribunal registrou que o contrato principal estava pactuado em R$ 2,616 bilhões e que havia previsão de aproximadamente R$ 2,258 bilhões em recursos para sua conclusão.

A documentação também previa recursos adicionais, incluindo R$ 1,148 bilhão do BNDES e aproximadamente R$ 14,7 milhões do Tesouro Estadual, de acordo com o planejamento apresentado pela Seinfra.

Isso demonstra que a questão financeira continuará sendo um dos principais pontos de acompanhamento da Linha Leste.

Qual será o impacto no transporte de Fortaleza?

A Linha Leste foi concebida para estabelecer uma ligação metroviária subterrânea entre a região central de Fortaleza e o Papicu, conectando-se a outros sistemas de transporte.

Na configuração atual da Fase 1, o empreendimento prevê aproximadamente 7,3 quilômetros e estações como Tirol-Moura Brasil, Chico da Silva, Colégio Militar, Nunes Valente e Papicu.

A estrutura foi planejada para ampliar a integração do sistema metroferroviário da capital com outros modais, incluindo a Linha Sul, a Linha Oeste, o VLT Parangaba-Mucuripe e o terminal de ônibus do Papicu.

Segundo documentos de fiscalização, a capacidade estimada da Fase 1 chega a aproximadamente 150 mil passageiros por dia.

A inclusão das três estações retiradas anteriormente amplia novamente o número de pontos de parada previstos no eixo central e leste da capital.

Uma nova etapa de uma obra marcada por mudanças

A contratação da Sacyr para as três estações representa, portanto, mais do que uma nova licitação de R$ 1,23 bilhão.

Ela é consequência direta das sucessivas reformulações da Linha Leste.

O empreendimento originalmente projetado foi reduzido, parte das estações foi retirada, contratos foram rescindidos, uma nova licitação foi realizada, o contrato atual passou por diversos aditivos e o cronograma foi ampliado.

Agora, com recursos do Novo PAC e uma nova concorrência, o Governo do Ceará tenta reincorporar ao projeto três estações que haviam ficado de fora da primeira etapa.

A Sacyr, que já participa da execução da Linha Leste por meio do Consórcio FTS, foi escolhida para executar essa nova frente individualmente.

O que acontece daqui para frente

A declaração da Sacyr como vencedora não significa que as máquinas começarão imediatamente a trabalhar nas três estações.

O resultado da concorrência ainda precisa seguir os procedimentos administrativos previstos para a contratação pública. Depois das etapas formais, deverá ocorrer a assinatura do contrato e, posteriormente, a emissão das autorizações ou ordem de serviço necessárias para o início efetivo dos trabalhos.

Também será necessário acompanhar o cronograma, os pagamentos, eventuais aditivos e a execução física da nova contratação.

Esse acompanhamento ganha importância porque a própria Linha Leste acumula um histórico documentado de atrasos, alterações contratuais e necessidade de complementação de recursos.

Linha do tempo da Linha Leste

2013 — início da primeira contratação para implantação da Linha Leste.

2013-2018 — primeira etapa enfrenta paralisações e problemas de execução.

2018 — primeiro contrato é rescindido e uma nova licitação é realizada.

2018 — Consórcio FTS, formado por Ferreira Guedes e Sacyr, vence a nova licitação por R$ 1,469 bilhão.

2021 — fiscalização do TCU registra atraso na execução e problemas no cronograma.

2022 — prazo contratual é prorrogado e o TCU registra a necessidade de apuração de responsabilidades pelos atrasos.

2023 — o valor do contrato do Consórcio FTS alcança aproximadamente R$ 2,616 bilhões após aditivos e reequilíbrio econômico-financeiro.

2024 — novo Termo de Compromisso do Novo PAC prevê R$ 1 bilhão para a complementação da Linha Leste, incluindo as três estações retiradas anteriormente.

2025 — fiscalização do TCU volta a apontar questões relacionadas aos recursos necessários para conclusão do empreendimento.

Maio de 2026 — são divulgadas duas multas ao Consórcio FTS, superiores a R$ 1,5 milhão, por atrasos relacionados à Estação Colégio Militar.

18 de setembro de 2026 — Sacyr Construccion S/A do Brasil é declarada vencedora da concorrência para construir Sé, Luíza Távora e Leonardo Mota por R$ 1.230.612.738,18.

O ponto central

A nova contratação coloca novamente as três estações subterrâneas no planejamento da Linha Leste, mas também abre uma nova etapa de acompanhamento de uma obra que já acumula mais de uma década de mudanças.

Para o Governo do Ceará, o contrato representa a retomada de estruturas que haviam sido retiradas do projeto. Para a Sacyr, representa uma ampliação de sua participação no empreendimento.

Para os órgãos de controle, o histórico da Linha Leste mostra a necessidade de acompanhamento do cronograma, dos custos e da disponibilidade de recursos.

E, para a população de Fortaleza, o resultado da licitação ainda é uma etapa intermediária: a vencedora foi definida, mas a entrega das três estações dependerá da formalização do contrato, do início efetivo das obras, do cumprimento do cronograma e da manutenção dos recursos necessários ao empreendimento.