O salário chega no começo do mês. A cesta básica, antes dele. Em junho, o trabalhador que recebe o piso nacional de R$ 1.621 precisou destinar, em média, mais da metade de sua renda líquida apenas para colocar na mesa os alimentos considerados básicos. Nas 27 capitais pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a cesta consumiu 52,02% do salário mínimo líquido.

O número ajuda a dimensionar a distância entre o valor que entra no bolso e o custo de manter uma família. Segundo o DIEESE, o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 8.110,92 em junho, cerca de cinco vezes os R$ 1.621 efetivamente pagos. Em maio, a estimativa era de R$ 7.999,44. Um ano antes, em junho de 2025, o valor calculado era de R$ 7.416,07, quando o piso nacional estava em R$ 1.518.

A conta considera não apenas comida. Pela determinação constitucional usada no cálculo, o salário mínimo deveria ser suficiente para bancar despesas de alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência de um trabalhador e sua família. Para chegar ao valor, o DIEESE toma como referência a cesta mais cara do país — em junho, a de São Paulo.

Leia Também:

  • Quatro em cada 10 investidores já precisaram resgatar aplicações para pagar dívidas

A comida leva horas de trabalho

Antes de pagar aluguel, transporte ou uma conta de luz, há uma despesa que não espera: comer. Em junho, foram necessárias, em média, 105 horas e 51 minutos de trabalho para comprar uma cesta básica nas 27 capitais pesquisadas. É praticamente a mesma marca de maio, quando eram 105 horas e 50 minutos, mas acima das 104 horas e 3 minutos registradas em junho de 2025.

A diferença entre as cidades é grande. Em São Paulo, onde a cesta custou R$ 965,47, foram necessárias 131 horas e 2 minutos de trabalho. O valor representa 64,39% do salário mínimo líquido. Em Cuiabá, a segunda cesta mais cara, de R$ 937,93, foram 127 horas e 17 minutos — 62,55% da renda líquida.

No Rio de Janeiro, a cesta chegou a R$ 920,94 e exigiu 124 horas e 59 minutos de trabalho. Em Florianópolis, foram R$ 918,42 e 124 horas e 39 minutosPorto Alegre completou o grupo das cinco capitais com as cestas mais caras, a R$ 889,58, exigindo 120 horas e 44 minutos de trabalho.

  • Dívidas impactam saúde de 86% dos inadimplentes, revela estudo

Na outra ponta, Aracaju registrou a cesta mais barata, a R$ 630,40. Ainda assim, foram necessárias 85 horas e 34 minutos de trabalho para comprá-la. Em São Luís, onde o conjunto de alimentos custou R$ 654,73, foram 88 horas e 52 minutos; em MaceióR$ 671,41 exigiram 91 horas e 7 minutos; e em NatalR$ 686,07, 93 horas e 7 minutos.

Estimando que um trabalhador exerça sua função por 40 horas semanais, durante cinco dias na semana, somando 160 horas por mês, quase que sua totalidade terá que ser usada apenas na compra de comida.

Cesta ficou mais cara em 17 capitais

A pressão sobre o orçamento não veio apenas de um mês para o outro. Em junho, o custo da cesta básica aumentou em 17 das 27 capitais pesquisadas e caiu em outras 10. Boa Vista teve a maior alta mensal, de 3,28%, seguida por Palmas (3,01%), Rio Branco (2,20%) e Porto Alegre (2,18%).

São Paulo registrou alta de 1,39% no mês, enquanto Cuiabá subiu 1,34% e Rio de Janeiro, 0,71%. Na outra direção, João Pessoa teve a maior queda, de 3,97%, seguida por Recife (-3,62%), Maceió (-3,61%), Natal (-3,48%) e Aracaju (-3,42%).

No acumulado de 12 meses, porém, o movimento foi praticamente generalizado: a cesta ficou mais cara em 26 capitais. Cuiabá teve a maior alta, de 14,71%, seguida por Aracaju, com 13,12%, e Belo Horizonte, com 12,52%. A exceção foi São Luís, onde a variação ficou em -0,09%.

O primeiro semestre também terminou no vermelho para quem depende do salário mínimo. Todas as 27 capitais registraram aumento no preço da cesta entre dezembro de 2025 e junho de 2026. A variação foi de 4,02%, em São Luís, a 21,48%, em Fortaleza.

Em Fortaleza, a cesta custou R$ 822,43 em junho, alta de 11,88% em 12 meses e de 21,48% desde o fim de 2025. Em Cuiabá, os aumentos foram de 14,71% e 18,53%, respectivamente. São Paulo acumulou alta de 9,37% em 12 meses e de 14,13% no ano.

O que ficou mais caro no supermercado

A cesta não se moveu como um bloco único. Alguns alimentos deram alívio ao consumidor, enquanto outros pressionaram o carrinho de compras.

café em pó foi um dos principais pontos de respiro. O preço caiu em 25 capitais entre maio e junho, com recuos que chegaram a 4,82% em Goiânia. Em 12 meses, houve queda em 25 cidades, com destaque para Rio de Janeiro (-23,82%) e Brasília (-23,36%). Segundo o levantamento, o avanço da colheita da safra 2026/2027 contribuiu para a redução.

açúcar também ficou mais barato. Apenas Macapá registrou alta mensal, de 5,98%; nas outras 25 capitais houve redução, com destaque para Rio de Janeiro (-7,16%), Porto Alegre (-4,93%) e João Pessoa (-4,27%). Em 12 meses, o preço caiu em todas as capitais, de 34,36% em Belém a 2,66% em São Luís. O avanço da colheita de cana-de-açúcar no Centro-Sul aumentou a oferta e ajudou a reduzir os preços.

O óleo de soja seguiu caminho semelhante: ficou mais barato em 24 cidades na comparação mensal. Em 12 meses, caiu em 16 capitais, com destaque para Florianópolis (-8,85%) e Manaus (-7,45%). Mas houve aumento em outras cidades — em São Luís, a alta acumulada chegou a 19,53%. A pesquisa atribui a redução do preço à maior oferta do produto e à demanda por biocombustíveis abaixo do esperado.

batata, por outro lado, mostra como a conta pode andar na direção oposta. O preço subiu em seis cidades entre maio e junho e caiu em outras cinco. Em Porto Alegre, a alta mensal chegou a 13,86%, enquanto Belo Horizonte teve queda de 7,74%. No período de 12 meses, porém, a batata ficou mais cara em todas as capitais pesquisadas, com aumentos de 35,72% em São Paulo a 79,49% em Vitória.

tomate também pesou. O preço subiu em 13 cidades em junho, com altas de 9,87% em Palmas e 9,64% em Porto Alegre. Em outras 14 capitais, houve queda, principalmente no Nordeste: João Pessoa (-25,83%), Recife (-22,86%), Maceió (-21,24%), Natal (-20,21%) e Aracaju (-19,33%).

Em 12 meses, entretanto, apenas São Luís teve queda no preço do tomate, de 15,09%. Nas demais capitais, houve aumento, chegando a 57,45% em Aracaju, 48,56% em Maceió e 42,05% em Salvador. O DIEESE relaciona o comportamento à maturação mais lenta do fruto devido ao frio, que reduziu a oferta, enquanto os preços elevados no varejo também reduziram a demanda.

arroz mostra um desafio. Em junho, o alimento subiu em 14 cidades, com detaque para as variações em Macapá (5,08%) e Rio Branco (5,01%), e diminuiu em outras 10. No acumulado de 12 meses, no entando, apenas Porto Velho teve alta, de 3,45%. Nas demais capitais, os preços caíram, com recuos de 27,09% em Boa Vista, 22,18% em Natal e 21,47% em Curitiba.

leite integral subiu em 16 capitais entre maio e junho. As maiores altas foram registradas em São Luís (5,39%), Boa Vista (5,17%) e Maceió (4,27%). Em 12 meses, o produto ficou mais caro em 22 cidades, com aumento de 9,44% em Salvador e 8,80% em Teresina.

carne bovina de primeira teve alta mensal em 19 capitais, variando de 0,06% em Vitória a 3,10% em Boa Vista. Em oito cidades, houve queda, como em Macapá (-2,27%) e Recife (-2%). No intervalo de 12 meses, contudo, a carne ficou mais cara em todas as capitais pesquisadas, com aumentos de 1,15% em Macapá a 17,92% em Rio Branco.

E há ainda o feijão, talvez o retrato mais duro da pressão recente. O preço médio do quilo aumentou em todas as capitais entre maio e junho. No feijão-preto, a alta variou de 3,78% no Rio de Janeiro a 12,22% em Vitória. Em 12 meses, quase todas as cidades registraram aumento, com altas de 13,85% em Vitória, 7,81% em Curitiba, 7,52% em Porto Alegre e 7,30% no Rio; apenas Florianópolis teve queda, de 2,18%.

Já o feijão-carioca, pesquisado no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e em São Paulo e Belo Horizonte, subiu em todas as capitais, de 2,10% em Belo Horizonte a 18,92% em Manaus. Em 12 meses, nenhuma escapou, variando entre 10,80%, em São Luís, e 70,95%, em Goiânia. As valorizações do produto têm sido sustentadas pela redução da área cultivada e pelas adversidades climáticas que afetaram a primeira e a segunda safras.

A conclusão do estudo é que, em média, mais de metade do salário mínimo líquido já estava comprometida com a cesta básica em junho. Em São Paulo, eram quase dois terços. E, enquanto o trabalhador precisava de mais de 100 horas de trabalho para colocar os alimentos básicos em casa, o DIEESE calcula que uma família de quatro pessoas precisaria de R$ 8.110,92 para cobrir o conjunto de despesas considerado necessário pela Constituição. Entre o que o salário mínimo paga e o que uma família precisa para viver, há uma distância de R$ 6.489,92 por mês.

FONTE/CRÉDITOS: Exame