Em sua aurora, a Doutrina Monroe se mostrava benéfica para os países das Américas ao repudiar a ingerência colonial europeia nas nações que se formavam na região.

Formulada pelo presidente James Monroe em 1823, ela buscava consolidar a influência dos recém-criados EUA, sem advogar a interferência direta nos vizinhos. Ao longo dos anos, o crescente poderio de Washington deturpou a já pouco inocente premissa, e, em 1904, Theodore Roosevelt acrescentou um corolário com seu sobrenome ao texto original.

A partir dele, os EUA se arrogaram o direito de intervir para garantir o controle do que viam como seu quintal estratégico. O resultado foi um século de apoio a ditadores amigos e um sem-número de ações militares.

Leia Também:

O fim da Guerra Fria e a ascensão do hoje abalado multilateralismo amainaram o ímpeto dos EUA, mas a volta de Donald Trump ao poder gerou um novo capítulo nessa história sombria.

Considerando inaceitável a prevalência comercial da China na América Latina, o republicano resolveu editar sua versão do dito corolário na Estratégia de Segurança Nacional de 2025.

Ela emprega o correto argumento do combate transnacional ao crime organizado e ao narcotráfico para justificar ações militares nos vizinhos —enquanto patina no Oriente Médio.

Aos aliados, promete cooperação e armas, como anunciou na quinta-feira (13) o secretário de Defesa, Pete Hegseth. Aos adversários, a iniciativa serve de desculpa para intervencionismo, como se viu na captura ilegal do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, onde o chavismo logo se assumiu vassalo de Trump.

O poder fincado em Caracas serviu para ampliar o bloqueio a outra ditadura condenável, a de Cuba, que está em deterioração.

Onde os governos à esquerda fracassaram, o republicano viu emergir aliados populistas de direita como o argentino Javier Milei, o chileno José Antonio Kast e o colombiano Abelardo de la Espriella. Trump agiu em apoio a eles e a outros; agora, mira o prêmio maior da região: o Brasil.

O cerco ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é multifacetado, com tarifas comerciais, cassação do visto da embaixadora, classificação de facções como terroristas e até um anunciado sobrevoo de bombardeiros para ataques nucleares nas proximidades do território brasileiro, com apoio de Santiago e Buenos Aires.

O beneficiário presumido seria o clã Bolsonaro, idólatra confesso do trumpismo, que tem no senador Flávio (PL-RJ) o desafiante no pleito deste ano. Lula repetiu a tática de levantar a bandeira da soberania, algo que já lhe rendeu dividendos políticos.

Quando as esparrelas eleitorais de lado a lado cessarem, sobrará a ameaça renovada das canhoneiras do bufão da Casa Branca, resumida numa postagem do Departamento de Estado na terça-feira (11): "O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado".

FONTE/CRÉDITOS: Folha de São Paulo