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Com seu jeito cool, sincero e carismático, Andrea Beltrão pavimentou sua estrada na dramaturgia acumulando, além do amor no coração dos brasileiros, muitos prêmios ao longo de sua trajetória.
Indicada ao Grande Otelo 11 vezes, e vencedora de um, como melhor atriz venceu três vezes o Prêmio Shell e também já levou dois troféus APCA e dois Candangos do Festival de Brasília. Indicada ao Emmy Awards em 2020, foi vencedora do prêmio de Melhor Atriz de Novela no Melhores do Ano por Rancho Fundo em 2024.
Este mês, se junta à lotada estante de Andrea mais uma importante homenagem: um Troféu Oscarito, premiação máxima do Festival de Cinema de Gramado.
Andrea receberá o prêmio no dia 14, durante a cerimônia de abertura do festival. “Recebo essa homenagem como uma doce lembrança sobre os meus trabalhos, com honra e uma certa timidez também”, conta à Vogue.
“Mas o que acho mais bonito é receber o Troféu Oscarito. Oscarito foi referência na minha vida toda. Assisti às suas chanchadas várias vezes, já o imitei e continuo imitando”, completa.
Além da merecida homenagem, Gramado também vai ver Andrea na telona com Antártida, novo thriller psicológico produzido pelo núcleo de filmes dos Estúdios Globo em coprodução com a Globo Filmes, anunciado pela emissora como o maior longa-metragem que já realizou, todo rodado em um estúdio de mais de 1.500 m², com câmeras autotracking de alta precisão, recursos de inteligência artificial e realidade aumentada, e mais de 300 m² de telas de LED.
Tamanho aparato foi utilizado para criar na tela o continente austral, que Andrea nunca visitou. “Me senti meio misto de Tamara Klink com Sigourney Weaver”, diverte-se a atriz.
Na trama, ela interpreta a subcapitã Elisabeth, que se vê às voltas com um crime de estupro na estação brasileira, e decide elucidá-lo. A vítima é Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa.
“É um tema pesado, delicado, difícil de falar. Mas é bom ter oportunidade de tocar nesse assunto de maneira mais profunda também.”
Os elementos tecnológicos, recorda a atriz, também foram um desafio inédito. “Em Tapas e Beijos, quando eu e a Fernanda [Torres, sua hilariante dupla na saudosa série global, que ficou cinco temporadas no ar entre 2011 e 2015] estávamos na Djalma Noivas, tinha várias janelas que davam vista para Copacabana, e um chroma-key aplicava no vidro dessas janelas a imagem do bairro.
Mas foi bem diferente em Antártida”, relembra.
Falando em Fernanda Torres — “minha paixão, minha parceira” –, enquanto a atriz encarnava Eunice Paiva e as agruras que a advogada e sua família viveram por conta da ditadura militar, Andrea vivia outra mulher que se destacou na luta contra o regime ditatorial: a advogada pernambucana Mércia Albuquerque Ferreira (1934-2003), figura-chave na defesa de presos políticos durante o período, na montagem Lady Tempestade, sua mais recente incursão teatral.
Coincidência? “Embora tenha estreado o espetáculo em janeiro de 2024, a gente não se movimentou porque veio a história de Eunice, que é brilhante”, explica a atriz.
“Foi uma peça que transbordou o contorno do teatro em si, porque muitas pessoas fundamentais da nossa vida social, cívica, cultural, como Míriam Leitão, Bernardo Mello Franco, Sérgio Abranches, escreveram não apenas sobre a peça, mas sobre a importância que Mércia teve”, celebra.
Noto que, quando Andrea fala de teatro, os olhos ganham mais brilho e a voz, mais empolgação. Especialmente quando discorre sobre o Poeira e o Poeirinha, teatros que fundou com Marieta Severo, outra grande parceira na dramaturgia e fora dela.
A amizade das duas, aliás, como não poderia deixar de ser, nasceu na coxia, revela Andrea. “Ficamos amigas numa peça que Marieta produziu e protagonizou chamada Estrela do Lar. Eu tinha 28 anos e a gente chegava horas antes no teatro, falava e falava e falava. Tocava o primeiro sinal, a gente não tinha passado o batom ainda de tanto que a gente falava [risos].” Mas foi nos tempos de A Grande Família (2001-14), em que as duas atuaram juntas, que nasceu o projeto. “Durante um jantar depois da gravação, começamos a falar sobre a ideia de ter um teatro.
No dia seguinte, a gente já estava andando pela cidade de carro, procurando casas. O [dramaturgo] Aderbal [Freire Filho, parceiro de Marieta falecido em 2023] achou uma casa, que a gente comprou e onde foi construído o Poeira. Depois, a gente comprou a oficina de carros ao lado e fez o Poeirinha. Tudo isso por uma paixão louca pelo teatro, sem tamanho”, diz.
Ainda que o teatro a comova e o cinema a abrace, impossível pensar em Andrea sem lembrar de seus papéis icônicos na TV – da irreverente Zelda Scott, de Armação Ilimitada (1985-88), em que foi pivô do primeiro trisal da televisão brasileira, até a sincerona Zefa Leonel, de Rancho Fundo (2024), várias de suas atuações televisivas são marcadas por fortes doses de humor, como a Sueli de Tapas e Beijos e a Marilda de A Grande Família também não deixam mentir.
“É maravilhoso fazer alguém rir, é um som esplêndido. Tem um tempo certo, uma matemática, uma física diferente.”
Já no cinema, a estrada de Andrea é pontuada por clássicos como Bete Balanço (1984), em que fez “uma figuração de luxo” a convite de Debora Bloch, depois de ter estreado na telona, no mesmo ano com Garota Dourada, e até filmes de terror, ou melhor “terrir”, gênero preconizado na sétima arte nacional por Ivan Cardoso, que a dirigiu em dois filmes, As Sete Vampiras (1986) e O Escorpião Escarlate (1990).
Mas foi em 2019 com Hebe (que depois ganhou seriado na TV) que a atriz conseguiu furar a bolha do cinema arte, levando às salas de todo o país a história da icônica apresentadora de TV. Não foi fácil a princípio. “Sou carioca, não via nenhum ponto de contato entre a minha vida e a dela, o que penso e o que ela pensava, sou de esquerda, ela era de direita.
Fiz muita prosódia e fiquei vendo incessantemente não sei quantas mil horas de entrevista. Li tudo que estava disponível. Mas ficava a dúvida: ‘por onde vou?’. Não queria fazer uma imitação”, relembra. “Aí vendo uma entrevista dela com o Jô [Soares], em que ela começa a contar como ela queria que fosse o velório dela, o enterro, como estaria vestida para a ocasião, as pessoas que ela queria chamar, e por aí vai.
Curiosamente, também sempre fiz isso, de ficar hipotetizando, caso acontecesse, que eu iria ao meu velório de lantejoula, que teria que tocar Barry White. Aí me deu um ‘pá’! Foi como se eu tivesse entendido um lugar dela que comunicava demais com uma coisa minha. Aí perdi a vergonha, e achei o caminho.”