Se Pelé é o "Rei do Futebol", Neymar ganhou dos fãs o título de "Príncipe". O apelido saiu de campo e batiza sua mais nova empreitada: a Le Princemarca de vinhos que entrou no mercado brasileiro no fim de junho com um time de rótulos brancos e tintos.

Até o momento, sete vinhos fazem parte da coleção, vendida exclusivamente no Brasil, mas um champanhe deverá chegar em breve para adicionar um número à escalação. Divididos em diferentes linhas, os vinhos podem partir de R$ 59,90.

"É um projeto voltado a pessoas que não têm afinidade com o vinho. É para uma pessoa que bebe cerveja, por exemplo. O objetivo é tentar aumentar o consumo de vinho no Brasil. Tentei fazer vinhos que entregam mais qualidade do que preço", diz Dirceu Vianna Junior, o responsável por escolher as uvas, os blends e os produtores.

Leia Também:

Albariño da Le Prince é produzido em Rías Baixas, na Espanha, pela vinícola Paco & Lola • Saulo Tafarelo
Albariño da Le Prince é produzido em Rías Baixas, na Espanha, pela vinícola Paco & Lola • Saulo Tafarelo

Primeiro e único brasileiro até o momento a ter o título de Master of Wine, uma das qualificações mais prestigiadas do mundo do vinho, é ele quem assina tecnicamente a Le Prince. Ou seja, o que está na taça é responsabilidade dele e da sua relação com produtores e enólogos.

Depois da linha de entrada, outros rótulos aparecem com preços sugeridos de três dígitos, entre R$ 149 e R$ 350, enquanto a linha mais exclusiva pode chegar a R$ 50 mil.

No varejo, por enquanto, estão disponíveis os vinhos de entrada e uma categoria acima, um pouco mais premium. Podem ser encontradas principalmente no Sul e em São Paulo em redes como Carrefour, Sam’s Club, Koch, Angeloni, Condor, Assaí e Atacadão, além do Mercado Livre. Já os rótulos de maior valor agregado miram adegas, empórios, hotéis, restaurantes de luxo, lojas duty-free e colecionadores.

Antes de chegar às gôndolas e aos e-commerces, a Le Prince havia registrado a venda antecipada de 300 mil garrafas. Até o fim do ano, a meta é comercializar mais de quatro milhões de rótulos e alcançar R$ 100 milhões em faturamento.

Quem está por trás do negócio é a JLX, holding de marcas que fez sociedade com a família de Neymar. Embora já tivessem trabalhado juntos em outros segmentos, como o mercado imobiliário, uma linha de suplementos e até no desenho animado "Ney Ney", feito com Inteligência Artificial, esta é a primeira aventura das partes no mundo do vinho.

"Notamos que era um mercado com muito potencial no Brasil, especialmente comparado aos países em que o Neymar já jogou. Identificamos uma lacuna de mercado e avaliamos os diferenciais competitivos ao trazer o Neymar para o projeto", conta Lucca Sapucaia, cofundador da Le Prince e nome por trás da JLX.

Os vinhos da marca são divididos por cores, segmentação emprestada do universo do uísque. "Fizemos essa comunicação para facilitar a escolha do vinho por parte do consumidor brasileiro. Queríamos tirar um pouco da ansiedade diante de tantos termos", explica Lucca.

A linha "Le Prince Red" abraça os dois vinhos de entrada, um branco e um tinto. São do Chile, uma decisão que envolveu o custo-benefício.

O branco é elaborado 100% com Sauvignon Blanc, com uvas provenientes de diferentes regiões, incluindo o Vale de Leyda, que contribui com notas mais tropicais, e Colchagua, que aporta frescor. A safra comercializada atualmente é a 2025. Já o tinto combina Cabernet Sauvignon, Malbec e Merlot. São vinhos de estilo, não de terroir, para que se mantenha um perfil consistente ao longo do tempo. Ambos são desenvolvidos pela vinícola Terraustral.

Depois vem a linha "Le Prince Black", que já começa a introduzir o conceito de terroir, também com um branco e um tinto, com preço sugerido entre R$ 149 e R$ 199,90. Ambos os rótulos são da Espanha, uma homenagem à carreira de Neymar, que jogou no Barcelona.

A linha reúne um Albariño da vinícola Paco & Lola, produzido em Rías Baixas, região reconhecida pela casta de alta acidez, perfil fresco e com certa salinidade. Segundo Dirceu, a escolha reflete uma tendência de crescimento do consumo de Albariño no mercado global.

Para o tinto, a aposta foi uma parceria com a tradicional Bodegas Faustino, que soma mais de 160 anos de história em Rioja. Em vez do Malbec, variedade de forte apelo entre os brasileiros por seus vinhos frutados e exuberantes, a proposta é oferecer um blend de uvas tintas de Rioja que preserve essa facilidade de consumo, mas que acrescente camadas de complexidade.

Rótulos mais exclusivos

A linha "Le Prince Green" tem rótulos com mais complexidade e estrutura, com precificação entre R$ 250 e R$ 350. O portfólio inclui um rótulo tinto francês da região de Châteauneuf-du-Pape, no sul do Vale do Ródano. O vinho passa por 12 meses em barrica e, entre as uvas, tem Grenache e Syrah. A França entrou na rota da marca não somente pela qualidade histórica de sua produção, mas por carregar outro significado especial na trajetória do jogador, que defendeu o Paris Saint-Germain.

Voltando à Espanha, a linha traz ainda um vinho da Abadía Retuerta, vinícola às margens do rio Douro. Segundo Dirceu, é o tipo de rótulo que Neymar costuma tomar com os amigosinspirado no Vega Sicilia, em Ribera del Duero, "mas com custo-benefício excepcional". Majoritariamente elaborado com Tempranillo, que dá a espinha dorsal ao vinho, o corte leva ainda Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah e um toque de Petit Verdot. Tem alto potencial de guarda.

Por fim, a linha mais exclusiva da marca é a "Le Prince Blue", focada em colecionadores e consumidores de alta renda, já que uma garrafa pode chegar a R$ 50 mil. Produzida em parceria com a SGC, vinícola boutique em Saint-Émilion Grand Cru, em Bordeaux, a coleção é composta por garrafas numeradas que contarão a história de alguns dos gols mais marcantes da carreira de Neymar.

É dessa linha que saiu uma garrafa leiloada no Leilão Beneficente do Instituto Projeto Neymar Jr., realizado em 3 de agosto, em São Paulo. No formato Impériale, com seis litros, a garrafa foi arrematada por R$ 600 mil.

O homem por trás dos vinhos do Neymar

Dirceu Vianna Junior, que vive em Londres, conta que o convite para participar do projeto chegou no fim do ano passado, por meio da família e dos “parças” de Neymar. A princípio, a resposta foi não. A justificativa era falta de tempo. A proposta, porém, acabou despertando seu interesse e o esperado "sim" veio.

"Meu desejo era fazer um projeto bem feito, com minha filosofia e a filosofia do Neymar, pois isso tem potencial de aumentar o consumo de vinho no Brasil", compartilha. A partir daí, ganhou liberdade para conduzir a seleção dos rótulos, conversar com produtores e definir os estilos. "Nunca me impuseram nada", afirma.

Dirceu Vianna Junior, Master of Wine, é o responsável pela seleção das uvas, blends e produtores da Le Prince • Divulgação
Dirceu Vianna Junior, Master of Wine, é o responsável pela seleção das uvas, blends e produtores da Le Prince • Divulgação

Dirceu está entre os pouco mais de 400 profissionais no mundo que carregam o título de Master of Wine (MW). Concedida pelo Institute of Masters of Wine (IMW), do Reino Unido, a distinção é uma das mais prestigiadas do universo do vinho e exige conhecimento aprofundado em viticultura, enologia, degustação às cegas e comércio internacional.

O trabalho com a Le Prince começou pelo estudo do mercado. Preços, perfis de consumidores e tendências foram alguns dos pontos analisados para entender que tipo de vinho poderia fazer sentido para o público nacional. "Alguém tem que testar o mercado. É o melhor para o vinho", resume.

Segundo Dirceu, o brasileiro ainda está construindo sua relação com a bebida. "O brasileiro está começando a beber vinho. Está em processo de desenvolvimento", disse ao CNN Viagem & Gastronomia durante o evento Vinhos de Portugal, em maio.

A aposta, no entanto, já começa a ecoar além do Brasil, uma vez que o projeto já recebeu propostas para uma futura internacionalização. Antes disso, porém, houve um teste particularmente importante: em tom de brincadeira, Dirceu conta que sua mãe gostou dos vinhos. Aprovação maior que essa, não há.

FONTE/CRÉDITOS: CNN Brasil