O ser humano sonha com soluções em pílulas. Ah, se até dieta e exercício coubessem em uma delas, brinca-se por aí. O fato, um tanto quanto sério, é que há mais de um século a indústria farmacêutica tem se empenhado em atender a esse desejo diante das mais diversas circunstâncias e patologias. E, nos últimos anos, graças ao salto tecnológico, laboratórios vêm conseguindo encapsular terapias sofisticadas que antes dependiam de picadas na veia ou na pele para funcionar. Sim, em vez da injeção, o comprimido. Trata-se de uma evolução (ou ramificação) capaz de melhorar a adesão às orientações médicas e o acesso a remédios que não carecem de uma logística tão complexa. E é nesse cenário que desponta um novo e esperado medicamento para o colesterol alto, problema silencioso por trás de infartos e derrames e com o qual convive cerca de um terço dos brasileiros.

PERIGO SILENCIOSO - Ameaça conhecida: placas de gordura que levam a infartos e AVCs
PERIGO SILENCIOSO – Ameaça conhecida: placas de gordura que levam a infartos e AVCs (Rasi Bhadramani/Getty Images)

A medicação atende pelo nome de enlicitida e é o primeiro inibidor de uso oral da PCSK9, a proteína produzida pelo fígado que permite ao colesterol sobrar e ameaçar a circulação. Ela mantém elevados em demasia os níveis de gordura no sangue, mesmo mudando o estilo de vida e tomando as drogas tradicionais. Aprovada pela agência regulatória americana, um termômetro de que deve chegar em breve ao Brasil, a pílula criada pela farmacêutica MSD amplia uma classe recente de terapias que, até então, contava apenas com versões injetáveis, de aplicação quinzenal ou mensal.

O aval à nova droga se baseia nos resultados de estudos clínicos com mais de 19 000 pacientes diagnosticados com colesterol nas alturas. Nesse tipo de teste, até por questões éticas, os voluntários são instruídos a ajustar hábitos e tomam medicações já estabelecidas — no caso do colesterol, as estatinas — com a adição do novo produto, outros fármacos ou o placebo. Nem os participantes nem os médicos sabem quem toma o que e, encerrada a pesquisa, abrem-se os resultados. Foi assim que descobriram que a enlicitida reduziu o LDL, popularmente chamado de colesterol ruim, em mais de 55%, superando outros medicamentos que costumam ser prescritos quando as estatinas sozinhas não dão conta do recado. Além disso, chamou atenção o baixo volume de efeitos colaterais — algo que, junto à forma de administração, interfere na adesão e na manutenção do tratamento. Isso é particularmente importante no contexto do colesterol alto. “Uma das reações adversas mais temidas pelos usuários de estatinas é a dor muscular, motivo frequente de abandono do remédio”, afirma o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.

A nova pílula, batizada com a marca Lipfendra, deve chegar ao mercado americano até 2027 e, na sequência, poderá ser encontrada no Brasil, segundo as previsões mais otimistas. Ela deverá atender pessoas com níveis de colesterol alto que não respondem às intervenções usuais ou são intolerantes às estatinas. A ideia não é aposentar fármacos com longos anos de estrada. Pelo contrário, a medicina moderna cada vez mais trabalha com o conceito de combinação entre medicamentos. Até porque a enlicitida ainda terá de provar, em análises robustas, que consegue fazer algo que as estatinas e companhia já demonstraram: reduzir o número de infartos e mortes. O ponto é que a última diretriz de manejo do problema da Sociedade Brasileira de Cardiologia baixou ainda mais as metas de controle da gordura no sangue. Para atingi-las e afastar obstruções pelas artérias, toda ajuda medicamentosa será bem-vinda, assim como os cuidados com a alimentação.

Infográfico detalhando cinco tratamentos para colesterol alto: Estatina, Ezetimiba, Ácido Bempedoico, Inibidores de PCSK9 e Inclisirana. Cada um descreve seu mecanismo de ação. No canto superior direito, há um ícone de frasco de remédio, pílulas e uma seringa, ilustrando os tratamentos

O tratamento do colesterol alto deu uma guinada na última década com a chegada das injeções que inibem a proteína PCSK9. Mais recentemente, foi aprovada no Brasil uma terapia genética que atinge esse alvo com apenas duas aplicações ao ano. Mas o preço alto e as restrições de cobertura, seja por meio dos convênios, seja pelo SUS, inviabilizam a utilização por boa parte dos brasileiros. “A maior novidade de uma medicação oral dessa classe é a escalabilidade na produção e no acesso, o que pode fazer com que ela chegue, em alguns anos, às bases da pirâmide populacional”, diz o cardiologista Andrei Sposito, diretor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Foi assim, percorrendo o caminho da inovação até o fornecimento em massa, que algumas pílulas mudaram a história — e continuam aí, salvando vidas. Elas mostram que a esperança pode ser oferecida em pílulas.

FONTE/CRÉDITOS: Veja