Quando a SP-Arte Rotas abrir as portas da ARCA, em São Paulo, entre 26 e 30 de agosto, o mapa que Fernanda Feitosa pretende desenhar será maior do que nas edições anteriores. Criada para lançar luz sobre a produção brasileira que muitas vezes circulava longe do radar do eixo Rio-São Paulo, a feira chega à quinta edição com 70 galerias e uma ambição que agora atravessa fronteiras: fazer da capital paulista também um ponto de encontro da arte latino-americana.

É um passo adiante em uma história que começou em 2005, quando Feitosa criou a SP-Arte e reescreveu o mercado do ramo no país. Dois anos depois, surgiu um segundo encontro, então dedicado à fotografia. Após a interrupção provocada pela pandemia, esse espaço foi reformulado e, em 2022, nasceu o Rotas. A ideia era dedicar mais atenção a uma produção que, embora também estivesse presente na feira principal, disputava espaço com grandes nomes do mercado nacional e internacional. “O Rotas funciona como uma lupa”, resume Feitosa. “É para ampliar esse mapa geográfico da arte brasileira.”

Na prática, isso significa colocar lado a lado galerias estabelecidas de São Paulo e do Rio de Janeiro e projetos vindos de diferentes partes do país. Nesta edição, Almeida & Dale, Galatea, Gomide&Co, Luciana Brito, Marilia Razuk e Vermelho dividem a ARCA com a Lima, de São Luís; Karandash, de Alagoas; Cave e Leonardo Leal, do Ceará; Marco Zero, de Pernambuco; Paulo Darzé e Midlej, da Bahia; e Cerrado e Karla Osório, do Centro-Oeste.

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“O centro não é só São Paulo. E o que está fora de São Paulo não é periferia”, diz Feitosa. Para ela, a distância dos principais centros comerciais ainda pode determinar o alcance da carreira de um artista. Então, quando a gente traz a galeria de São Luís ou de Pernambuco, ela traz o artista de lá e a gente abre um olhão para essas produções.”

Para Feitosa, esse movimento responde a uma transformação que já vinha sendo percebida antes da pandemia. “Havia uma demanda por um espaço maior para as mulheres, para os artistas negros, para os artistas LGBT. Essa diversidade que a arte tem, mas que às vezes, nos grandes encontros e nas grandes feiras, não se mostra tão presente.” A mudança também alcançou a maneira de enxergar a produção indígena. “Nós não tínhamos um olhar para o artista indígena como um artista contemporâneo. E isso mudou”, diz.

De São Paulo para a América Latina

Em 2026, porém, o mapa se expande. A edição recebe galerias do Uruguai, Argentina e Colômbia, além da italiana Orma. A direção artística, pela primeira vez nas mãos do curador Bernardo Mosqueira, reforça esse movimento, inclusive estimulando galerias brasileiras a construir diálogos com artistas latino-americanos.

Feitosa vê nessa aproximação uma oportunidade de reposicionar São Paulo no circuito internacional. “A gente vem tentando bater nessa tecla do Brasil enquanto um país superimportante dentro do contexto da América Latina e São Paulo se tornar um polo importante desse encontro.”

Hoje, lembra ela, boa parte do mercado latino-americano converge para Miami. Há razões objetivas para isso como o tamanho do mercado norte-americano, a estabilidade econômica e, sobretudo, condições tributárias mais favoráveis. Mas Feitosa acredita que São Paulo reúne atributos para ocupar uma posição complementar. “Será que a gente não pode ter um segundo polo de arte latino-americana? São Paulo é culturalmente pulsante e o coração financeiro da América Latina.”

DivulgaçãoTobías Dirty, “Dibujando”, 2025. Dirty é um artista visual argentino

Onde as galerias podem arriscar

Se a expansão geográfica ajuda a definir o Rotas, a experimentação completa sua identidade. Feitosa descreve a SP-Arte principal como a “sedimentação do mercado”: é onde galerias apresentam seus programas mais reconhecidos, nomes históricos, artistas consagrados e mercado secundário. No Rotas, a lógica muda.

O Rotas é um foco lançado em experimentações. Ali galerias arriscam um pouco mais em projetos novos”, afirma Gabriela Valdanha, Head de Comunicação da SP-Arte. Em vez de simplesmente reunir parte do portfólio, cada participante é estimulado a construir um projeto específico, estabelecer diálogos e apostar em nomes ainda em processo de consolidação.

É justamente daí que pode vir parte do interesse internacional. Na leitura de Feitosa, os colecionadores estrangeiros encontram no Brasil artistas discutindo temas globais como pertencimento, territorialidade, imigração e crise climática, a partir de uma experiência particular. “Estão todos falando sobre a mesma coisa. Mas o brasileiro responde algumas dessas temáticas de forma diferente, ou mesmo o latino, com as especificidades do local em que a gente está”, diz.

DivulgaçãoAntônio Potero, “Preservação da Natureza”, 1988

Para ela, ampliar esse repertório também significa tornar a arte menos intimidante. Ela percebe um público mais jovem e habituado a falar sobre exposições, museus e artistas, e acredita que feiras como o Rotas podem servir de porta de entrada. “Arte não é um negócio difícil, é hábito.”

O Rotas então ganha função clara: não apenas vender obras ou revelar novos nomes, mas alterar o mapa mental de quem circula pelo mercado. Primeiro, mostrar que a produção brasileira não termina no eixo Rio-São Paulo. Agora, lembrar que o Brasil tampouco precisa permanecer à margem quando se fala em arte latino-americana. “O que é bom não é só o que é importado”, diz Feitosa. “Ser brasileiro é, sim, muito bom.”

FONTE/CRÉDITOS: Forbes Brasil